Com 10% na Quaest, Augusto Cury cresce entre independentes e entra no radar da estratégia petista para reduzir o espaço eleitoral de Flávio Bolsonaro
por Jamildo Melo
Publicado em 03/09/2026, às 15h00 - Atualizado às 15h10
A ascensão de Augusto Cury para 10% na pesquisa Quaest abriu uma nova variável na disputa presidencial.
Na esquerda, a expectativa é que o candidato do Avante avance sobre eleitores independentes e ajude a desidratar Flávio Bolsonaro.
Se esse movimento ocorrer sem retirar votos relevantes de Lula, pode fortalecer a tentativa do presidente de liquidar a eleição ainda no primeiro turno.
A disparada de Augusto Cury (Avante) na primeira pesquisa Quaest realizada após o início da propaganda eleitoral colocou uma nova variável nas contas das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Com 10% das intenções de voto, o escritor e psiquiatra se consolidou na terceira posição e passou a ser observado pela esquerda como um possível fator de desgaste eleitoral para o candidato do PL.
Lula aparece na liderança, com 37%, enquanto Flávio registra 30%. Cury vem em seguida, com 10%. Renan Santos (Missão) tem 3%, enquanto Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Pablo Marçal aparecem com 1% cada.
A leitura que interessa ao campo governista é simples, embora ainda dependa do comportamento do eleitorado nas próximas semanas: se Cury conseguir avançar principalmente sobre eleitores que poderiam migrar para Flávio Bolsonaro, preservando a base de Lula, sua candidatura pode contribuir indiretamente para ampliar a distância entre os dois primeiros colocados.
Esse cenário alimentaria inclusive a possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno, hipótese que depende de o presidente ultrapassar 50% dos votos válidos. Para isso, não basta Cury crescer. É necessário que a expansão do candidato do Avante atinja proporcionalmente mais o campo adversário e outros candidatos do que o eleitorado potencial do petista.
Os números da Quaest ajudam a explicar por que a candidatura de Augusto Cury passou a ser acompanhada com atenção pela esquerda.
O crescimento do escritor ocorre principalmente entre os chamados eleitores independentes — aqueles que não se identificam como lulistas ou bolsonaristas nem se posicionam claramente à esquerda ou à direita.
Nesse segmento, Cury chega a 24%, numericamente acima dos 21% de Lula. Como a margem de erro geral da pesquisa é de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados. Flávio Bolsonaro aparece bem atrás, com 9%.
Entre os jovens, outro segmento importante para uma candidatura que tenta escapar da polarização, Cury alcança 14%.
Segundo o diretor da Quaest, Felipe Nunes, o perfil atual do eleitor de Cury é predominantemente jovem, independente e com ensino superior. A candidatura estaria funcionando, até agora, como alternativa para uma parcela do eleitorado que rejeita a disputa direta entre Lula e Flávio.
É justamente aí que está uma das oportunidades enxergadas por setores da esquerda. Quanto maior a capacidade de Cury de atrair eleitores que rejeitam Lula, mas também não querem votar em Flávio, menor pode ser o espaço disponível para o candidato do PL ampliar seus atuais 30%.
A matemática, porém, exige cautela.
O crescimento de Augusto Cury não significa automaticamente vantagem para Lula. O candidato do Avante também disputa independentes com o presidente e pode capturar eleitores que, diante de uma eleição polarizada, acabariam escolhendo o petista.
O dado decisivo será, portanto, a origem dos novos votos de Cury.
Na comparação com o levantamento anterior, divulgado em 14 de agosto, Cury avançou oito pontos percentuais. Lula e Flávio oscilaram um ponto para baixo. Ronaldo Caiado apresentou a maior queda, passando de 4% para 1%.
A comparação tem uma limitação: o cenário anterior incluía Leonardo Avalanche pelo PRTB, enquanto o levantamento atual testa Pablo Marçal.
Mesmo assim, o avanço de Cury chama atenção porque ocorre enquanto os demais candidatos ficam estáveis ou recuam.
Caso o escritor continue crescendo principalmente sobre candidatos de direita, centro-direita e eleitores independentes resistentes a Lula, o efeito poderá favorecer a estratégia petista. Se passar a avançar também sobre a base potencial do presidente, a conta muda.
Se a esquerda encontra razões para acompanhar o crescimento de Cury no primeiro turno, a pesquisa também traz um alerta importante para Lula.
Em uma eventual disputa direta contra Flávio Bolsonaro, o presidente aparece com 42%, contra 41% do senador. O resultado configura empate técnico, como mostrou mais cedo o site Jamildo.com.
A vantagem de Lula chegou a oito pontos percentuais em julho e agora caiu para apenas um.
A Quaest também testou pela primeira vez um eventual segundo turno entre Lula e Augusto Cury. Nesse cenário, o presidente registra 40% e o candidato do Avante, 34%.
Cury ainda apresenta uma vantagem estratégica: sua rejeição é menor que a dos dois líderes.
Segundo a pesquisa, 25% afirmam conhecer o escritor e não votar nele. A rejeição chega a 53% para Lula e 55% para Flávio Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, 54% dos entrevistados ainda dizem não conhecer Cury. Entre aqueles que sabem quem ele é, 21% afirmam que poderiam votar no candidato.
Essa combinação — baixa rejeição, elevado desconhecimento e crescimento acelerado — indica que Cury ainda possui espaço para oscilar de maneira relevante durante a campanha.
A própria campanha de Lula identifica o eleitor independente como uma das áreas decisivas da disputa.
Para petistas, o desempenho de Flávio Bolsonaro nesse segmento reforça a estratégia de concentrar críticas no candidato do PL, tentando dificultar sua expansão para além do eleitorado bolsonarista.
No campo de Flávio, a orientação inicial é diferente. Aliados chegaram a reunir informações sobre a trajetória, declarações e relações políticas de Augusto Cury, mas a campanha evita, por enquanto, ataques frontais que possam aumentar a exposição do terceiro colocado.
A cautela tem uma razão: até agora, o crescimento de Cury atingiu principalmente candidatos que estavam fora das duas primeiras posições.
Esse comportamento precisará mudar para que se confirme a expectativa existente na esquerda de que o candidato do Avante possa efetivamente desidratar Flávio.
Outro dado da Quaest ajuda a explicar as dificuldades do candidato do PL.
Questionados sobre quem seria o candidato ideal dentro de cada campo político, 49% dos entrevistados apontam Lula como a melhor opção disponível na esquerda. Flávio Bolsonaro recebe avaliação equivalente de apenas 33% quando a pergunta é feita sobre os nomes da direita.
A diferença também aparece dentro dos próprios campos ideológicos.
Entre eleitores de esquerda que não se consideram lulistas, 79% veem Lula como a opção ideal. Na direita não bolsonarista, apenas 50% dizem o mesmo sobre Flávio.
O cenário sugere uma base mais consolidada para o presidente, apesar da queda na avaliação do governo. A aprovação da administração Lula está em 45%, enquanto a desaprovação chega a 48%.
Outro desafio será levar os eleitores às urnas. Apenas 37% dizem estar muito interessados na eleição, enquanto 40% demonstram pouco interesse e 22% afirmam não ter nenhum interesse.
A capacidade de mobilização, portanto, pode ser tão importante quanto a transferência de votos entre os candidatos.
Para Lula, a equação que começa a ser desenhada passa por manter sua base, avançar entre independentes e torcer para que Augusto Cury cresça mais sobre o eleitorado disponível a Flávio Bolsonaro do que sobre o seu próprio.
Se essa combinação ocorrer, a terceira colocação de Cury poderá deixar de ser apenas uma novidade da campanha e se transformar em peça relevante na tentativa petista de resolver a eleição presidencial já no primeiro turno.
A Quaest ouviu 2.004 eleitores entre 30 de agosto e 1º de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. A pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-07065/2026.