Desenrola 2.0 pode ampliar ciclo de endividamento no Brasil, alerta especialista

Especialista diz que programa federal Desenrola 2.0 deixa o consumidor entre a cruz e a espada e que sem educação financeira endividamento voltará

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 05/05/2026, às 15h12 - Atualizado às 15h58

Desenrola 2.0 alivia hoje, mas pode empurrar milhões de brasileiros de volta ao mesmo ciclo de dívidas amanhã
Desenrola 2.0 alivia hoje, mas pode empurrar milhões de brasileiros de volta ao mesmo ciclo de dívidas amanhã - Imagem gerada por IA/Divulgação

O Brasil atingiu recorde de 81,7 milhões de inadimplentes, segundo o Serasa.

O governo lançou o Desenrola 2.0 para renegociar dívidas e estimular o consumo.

Para o advogado Stefano Ferri, a medida é paliativa e não resolve causas estruturais.

Ele alerta para o risco de reendividamento sem educação financeira adequada.

Sem mudanças no crédito e orientação ao consumidor, o problema tende a persistir no longo prazo.

O lançamento do programa Desenrola 2.0 pelo governo federal, com a promessa de aliviar a situação de milhões de brasileiros inadimplentes, acendeu um alerta entre especialistas sobre os riscos de a medida não produzir efeitos sustentáveis no médio e longo prazo.

Dados recentes do Serasa mostram que o país atingiu, em 2026, um recorde de 81,7 milhões de pessoas endividadas — cenário que expõe um problema estrutural.

Segundo o advogado Stefano Ribeiro Ferri, a iniciativa pode ter impacto imediato, mas tende a falhar na raiz do problema.

“Trata-se de um ciclo de endividamento crônico, agravado pela ampliação irresponsável do acesso ao crédito e pelo aumento das taxas de juros”, afirma, em informe ao site Jamildo.com.

Ele cita ainda números do Banco Central do Brasil que indicam que quase metade da renda das famílias já está comprometida com dívidas bancárias.

O programa prevê descontos de até 90% em débitos e autoriza o uso de até 20% do FGTS para quitação.

Para Ferri, no entanto, a proposta tem caráter paliativo.

“Embora alivie momentaneamente a inadimplência, o Desenrola 2.0 não resolve o problema estrutural. Sem educação financeira, o consumidor pode sair de uma dívida e entrar em outra”, explica.

O advogado aponta que há um risco concreto de reendividamento.

“Milhões de brasileiros podem apenas trocar uma dívida antiga por uma nova, sem capacidade real de pagamento. Isso cria uma armadilha que aprofunda o ciclo de inadimplência”, diz.

Ele acrescenta que a falta de informação e orientação financeira agrava o cenário, especialmente entre as camadas mais vulneráveis da população.

Outro ponto levantado é o comportamento do mercado de crédito.

“O crédito deixa de ser instrumento de inclusão e passa a ser armadilha quando é concedido sem responsabilidade, muitas vezes sem avaliação adequada da capacidade de pagamento”, afirma Ferri. Segundo ele, há situações em que o custo real das operações não é devidamente transparente ao consumidor.

Na avaliação do especialista, o problema também tem dimensão jurídica.

“A desigualdade de informação impõe uma onerosidade excessiva ao consumidor. A lógica da boa-fé exige limites claros na concessão de crédito”, sustenta. Ele destaca que, sem mudanças estruturais, o sistema tende a reproduzir distorções, em vez de corrigi-las.

Para Ferri, o governo deveria priorizar políticas de educação financeira e regulação mais rigorosa do crédito. “Sem enfrentar as causas estruturais do endividamento, o programa corre o risco de ser apenas um alívio imediato. No médio e longo prazo, o consumidor pode continuar preso ao mesmo dilema”, conclui.