Brasileiros sonharam mais com vitória de Lula ou Flávio Bolsonaro?

Eleição invade os sonhos dos brasileiros: levantamento da Bites aponta dez vezes mais menções ligadas a Lula do que à família Bolsonaro nos relatos

Jamildo Melo

por Jamildo Melo

Publicado em 25/10/2026, às 07h02

Flávio Bolsonaro e Lula posam ao fundo de logo de Eleições da Globo
A disputa continua de olhos fechados: relatos de sonhos misturam vitórias apertadas, medo da derrota e até Che Guevara na reta final da eleição - Fernando Frazão/Agência Brasil

A eleição de 2026 aparece nos sonhos relatados por brasileiros nas redes sociais, segundo levantamento da Bites

As menções ligadas a Lula representam 23,3% das publicações analisadas, contra 2,3% relacionadas à família Bolsonaro

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Os relatos misturam desejo de vitória e medo da derrota, refletindo preocupações da reta final da campanha

Sonhos da eleição

Por Manoel Fernandes, Diretor Bites, em artigo especial para o site Jamildo.com

A eleição de 2026 invadiu o sono dos brasileiros. Entre os 154.660 relatos de sonhos publicados nas redes sociais no último mês, as menções ligadas a Lula superam em dez vezes as ligadas à família Bolsonaro: 23,3% contra 2,3%.

Diante de uma eleição disputada dia a dia, variável que não estava nos planos do presidente Lula, os eleitores do PT podem estar mais incomodados com a situação do que os aliados do senador Flávio Bolsonaro.

Na reta final da campanha, a ansiedade de um dos lados virou enredo noturno.

Milhares de brasileiros acordam todos os dias e entram no Google ou nas redes sociais em busca de significados ou para relatar sonhos da noite anterior.

Normalmente, esse movimento ocorre entre as 5h e as 6h da manhã.

No contexto de uma campanha presidencial tão polarizada e acirrada na sua reta final, é natural que o tema esteja presente nos sonhos dos brasileiros.

No último mês, Bites identificou 154.660 publicações nas redes sociais de pessoas relatando seus sonhos. A expressão que reflete essa análise é “sonhei”.

Dentro desse universo, 23,3% das menções estão associadas à candidatura do presidente Lula e alinhadas ao desejo de vitória do petista sobre o seu adversário Flávio Bolsonaro.

As pessoas relatam sonhos nos quais Lula ganha por uma margem bem estreita, quase no limite do empate.

Também há referências, feitas por aliados de Flávio Bolsonaro, a uma vitória do senador.

Outro personagem aparece nos sonhos de quem está mais alinhado à campanha da esquerda: Ernesto Che Guevara.

Enquanto Lula é citado diretamente em 17.493 publicações, o argentino, um dos principais agentes da Revolução Cubana, aparece em 7.043 menções sobre a campanha eleitoral.

Também houve referências (7.020) ao destino da América Latina a partir do crescimento dos governos conservadores na região.

No Google, por exemplo, a busca por Che atingiu o seu maior pico de interesse dos últimos cinco anos entre os dias 11 e 17 de outubro.

Parte desse interesse pode ser explicada pela efeméride: 9 de outubro marcou os 59 anos da morte do guerrilheiro na Bolívia, data que costuma gerar picos de busca todos os anos.

Ainda assim, o volume de 2026 superou o das mesmas semanas dos cinco anos anteriores, o que indica um componente eleitoral além da lembrança histórica.

As perguntas mais frequentes feitas em torno desse tema nos últimos dias foram se Che Guevara era um ditador ou racista.

O ex-presidente Jair Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro também aparecem nos relatos das redes sociais sobre sonhos da eleição de 2026 no Brasil.

Os usuários relatam uma forte sensação de desconforto ao acordarem com a possibilidade de vitória do senador sobre Lula e, em alguns casos, classificam o sonho como um pesadelo.

Mas o volume sobre o clã Bolsonaro é baixo: 3.530 menções, o equivalente a 2,3% do volume total de publicações sobre sonhos.

A relação entre clima político e sonhos não é nova nem exclusiva do Brasil.

Ainda nos anos 1930, a jornalista Charlotte Beradt coletou sonhos de alemães sob o nazismo e mostrou, em “Sonhos no Terceiro Reich”, como o medo e a vigilância do regime invadiam as noites da população.

Décadas depois, o pesquisador norte-americano Kelly Bulkeley, em “American Dreamers” e em estudos sobre as campanhas presidenciais de 2000 e 2008, demonstrou que conservadores e progressistas sonham de forma diferente.

Os candidatos passam a frequentar os sonhos dos eleitores à medida que a disputa se acirra.

A pesquisa combinou diários de sonhos de dez participantes com uma pesquisa de opinião com 705 adultos.

É uma investigação exploratória: suas associações não permitem determinar a ideologia de alguém a partir de um sonho.

No Brasil, a neurocientista Natália Mota e o grupo de Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da UFRN, publicaram um estudo que identificou, nos relatos de sonhos durante a pandemia, aumento de palavras ligadas a raiva, tristeza, contaminação e limpeza.

O resultado foi interpretado como reflexo direto do sofrimento mental do período.

Na mesma linha, a pesquisa de Enio Passiani (UFRGS) sobre a sociologia dos sonhos na Covid-19 apontou que mulheres, jovens e pessoas de menor renda relataram sonhos mais carregados de emoções negativas.

Esses trabalhos se apoiam na chamada hipótese da continuidade, segundo a qual o conteúdo dos sonhos espelha as preocupações da vigília.

Eles ajudam a entender por que, na reta final de uma eleição polarizada, Lula, Flávio Bolsonaro e até Che Guevara passaram a ocupar o sono dos brasileiros.