Grande Rio une lama do Recife e de Caxias em desfile sobre o Manguebeat nesta terça (17)

Escola de samba homenageia o movimento de Chico Science e estabelece conexões sociais entre o Rio Capibaribe do Recife e antigo lixão de Jardim Gramacho

Cynara Maíra

por Cynara Maíra

Publicado em 17/02/2026, às 10h52 - Atualizado às 11h25

Mestre Fafá usa camiseta de Chico Science
Fernando Frazão/Agência Brasil. - Mestre Fafá e a bateria da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio durante participação no programa Sem Censura, da TV Brasil

A Grande Rio desfila na Sapucaí nesta terça-feira (17) com o enredo "A Nação do Mangue", conectando as periferias do Recife e de Duque de Caxias.

O carnavalesco Antônio Gonzaga inspirou-se no movimento Manguebeat para traçar paralelos entre o Rio Capibaribe e a recuperação ambiental do antigo lixão de Jardim Gramacho.

O desfile resgata o manifesto "Caranguejos com cérebro" (1992) e conta com a participação de Louise, filha de Chico Science, na ala que homenageia o líder da Nação Zumbi.

No coração da escola, Mestre Fafá comanda 270 ritmistas com arranjos de frevo e maracatu em tributo ao bloco afro olindense Lamento Negro.

A agremiação entra na avenida entre 0h55 e 01h15; a apuração das notas que define o título do Grupo Especial ocorre nesta Quarta-feira de Cinzas (18).

A lama do manguezal do Rio Capibaribe, no Recife, encontra a do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, estado do Rio de Janeiro, na noite desta terça-feira (17).

Penúltima escola a desfilar no Grupo Especial do Rio de Janeiro, a Grande Rio leva para a Sapucaí o enredo "A Nação do Mangue". O desfile busca o título após o vice-campeonato de 2025 e aposta na transformação social como ponto de união entre Pernambuco e a Baixada Fluminense.

Responsável pela narrativa, o carnavalesco Antônio Gonzaga afirma que o ritmo pernambucano e a escola de Caxias compartilham discursos semelhantes. A inspiração para o tema surgiu de diálogos com seu pai, o jornalista Renato Lemos, que também assina a sinopse do desfile.

O projeto une a crítica ambiental à resistência cultural e utiliza a figura do caranguejo como metáfora para a criatividade das periferias.

No começo da apresentação, a escola saúda Nanã, orixá que rege a lama, com tons de roxo e vermelho. A agremiação conta com seis setores, cinco carros alegóricos e três tripés. Diversas personalidades recifenses participam da noite, incluindo Louise, filha de Chico Science. Ela desfila na ala dedicada ao legado do líder da Nação Zumbi.

A Grande Rio estabelece um nexo entre a crise que o Recife viveu nos anos 1990 e a realidade de Jardim Gramacho. Naquela época, a ONU classificava a capital pernambucana como uma das piores cidades para se viver.

O antigo lixão de Caxias, que encerrou as atividades em 2012, passa hoje por um processo de recuperação ambiental com o plantio de 150 mil mudas de mangue.

O desfile resgata o manifesto "Caranguejos com cérebro", escrito em 1992 por Fred Zero Quatro. O texto incentivava a injeção de energia na lama para recarregar as baterias da capital pernambucana.

Na Sapucaí, esse discurso encontra a realidade dos catadores da Baixada Fluminense. O samba-enredo cita o "gabiru" que trabalha cedo e cata o lixo da maré.

No coração da escola, Mestre Fafá coordena 270 ritmistas com arranjos baseados no frevo e no maracatu. A principal inovação rítmica remete às "viagens" musicais de Chico Science e funde a batida carioca aos tambores nordestinos. Os músicos usam fantasias que homenageiam o bloco afro Lamento Negro, de Olinda, grupo que serviu de base para a fundação da Nação Zumbi.

A Grande Rio entra na avenida entre 0h55 e 01h15. A apuração das notas ocorre na quarta-feira (18). 

Veja o samba-enredo da Grande Rio: 

"A nação do mangue":

Lá vem caboclo, herdeiro de Zumbi

A nação está aqui

Não se curva ao poder

Escute, nossa gente vem da lama

Resistência que inflama

Quando toca o xequerê

Casa de gueto! Casa de gueto!

Nossa voz que não se cala

Batuque sem medo por direito, é o toque das alfaias

Eu também sou caranguejo à beira do igarapé

Gabiru trabalha cedo, cata o lixo da maré

Manamauê maracatu

Saluba, ê Nanã Yabá!

A vida parecida com as águas

Não é doce como o rio

Nem salgada feito o mar

A margem já subiu para cidade

Entre tronco e cipó, rebeldia dá um nó

Pensamento popular

Gramacho encontrou Capibaribe

Num mundo livre, quero ver você cantar

Freire, ensine um país analfabeto

Que não entendeu o manifesto

Da consciência social

Chico, Manguebeat tá na rua

Caxias comprou a luta

E transforma em carnaval!

Respeite os tambores do meu Ilê

Respeite a cadência do meu ganzá

À frente, o estandarte do meu povo

Pra erguer um tempo novo que nos faz acreditar!

Eu sou do mangue, filho da periferia

Sobre uma palafita, Grande Rio anunciou

Ponta de lança é Daruê

Dobra o gonguê, a revolução já começou!

Composição: Ailson Picanço / Marquinho Paloma / Davison Wendel / Xande Pieroni / Marcelo Moraes / Guga Martins.