Jamildo Melo | Publicado em 26/01/2026, às 07h48 - Atualizado às 08h15
Em entrevista exclusiva ao podcast do site Jamildo.com, em sua passagem por Pernambuco para reforçar a pré-candidatura presidencial pelo Partido Novo, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, afirmou que a direita tende a chegar “unida no segundo turno” em 2026, mesmo com mais de um nome na disputa.
Na entrevista, Zema fez críticas diretas e indiretas ao governo Lula, sobretudo na economia, e apresentou um cardápio de bandeiras: redução de juros via “responsabilidade fiscal”, combate a privilégios, gestão “técnica” com menos cargos, flexibilização de regras trabalhistas e mudanças no Bolsa Família com contrapartidas e “porta de saída”.
Segundo ele, o campo conservador não estaria “fragmentado”, mas com “mais opções” — e isso, no cálculo do governador, ampliaria votos no primeiro turno e facilitaria a convergência depois.
“A direita vai estar junto unida no segundo turno”, disse, ao defender que qualquer nome do espectro que avance deve receber apoio dos demais.
O eixo central do ataque de Zema ao Planalto foi econômico. Ele atribuiu a manutenção de juros elevados à condução fiscal do governo federal, com críticas à “gastança desnecessária” e ao crescimento da dívida pública.
Para o governador, o resultado é um país “andando com o freio de mão puxado”, prejudicando consumo, indústria e investimento.
Na fala, Zema sustentou que o governo “dá com uma mão e tira com a outra”: ao mesmo tempo em que mantém programas sociais, a população pagaria mais caro em prestações de carro, casa e moto por causa dos juros. Ele também argumentou que taxas altas favorecem quem já tem capital, com retorno elevado em títulos públicos, e desestimulam investimento produtivo.
Zema tenta transformar o próprio estilo de gestão em marca nacional. Disse que o Novo defende “fim aos privilégios” e que, em Minas, adotou práticas que contrasta com a política tradicional: afirmou não ter nomeado parentes (“zero”), ter reduzido mordomias associadas ao cargo e mantido um padrão de vida semelhante ao que tinha antes de ser governador.
Como vitrine administrativa, repetiu que Minas tem 14 secretarias — número que, segundo ele, seria menor do que o de alguns estados com população inferior. Também insistiu no discurso de “gestão técnica”, alegando que seus secretários foram selecionados por critérios de competência, com entrevistas e avaliações, e que a orientação é expulsar integrantes do governo em caso de conduta inadequada.
Provocado sobre a polêmica de 2023 — quando houve reação do Consórcio Nordeste após declarações sobre incentivos regionais — Zema adotou um tom de acomodação: elogiou o potencial turístico e cultural do Nordeste e disse ter investimentos na região.
Ao mesmo tempo, manteve críticas ao que chamou de práticas de parte das lideranças políticas locais, mencionando, de forma genérica, “arranjos” e privilégios em estruturas de controle, sem citar nomes.
Ele também buscou rebater a leitura de que o COSUD (Consórcio Sul-Sudeste), do qual foi um dos articuladores, teria objetivo de “fazer frente” ao Nordeste. Afirmou que a iniciativa seria para “somar forças” e defender pautas comuns, assim como ocorre com o Consórcio Nordeste.
No tema trabalhista, Zema fez crítica indireta ao governo Lula ao dizer que o Brasil vive uma realidade em que “metade de quem trabalha” está na informalidade e, portanto, fora de direitos como FGTS, férias e 13º. Para ele, a solução passa por “modernizar regras” e criar mais liberdade de negociação entre empregado e empregador.
Na prática, defendeu a criação de um modelo alternativo — uma espécie de “CLT 2” — com pagamento por hora e contratos mais flexíveis, sem necessariamente extinguir o formato atual.
Ao comentar o debate sobre o fim da escala 6x1, disse ser contra jornadas exaustivas, mas voltou a insistir em “opção” e desenho contratual flexível como saída, em vez de uma regra única.
Zema também apontou a Previdência como um problema “indigesto” que deve recair sobre o próximo presidente. Relatou que, em Minas, o gasto previdenciário cresce mais rápido do que a receita e defendeu um mecanismo automático: sempre que a expectativa de vida aumentar, o tempo de contribuição também aumentaria. No raciocínio do governador, viver mais deveria significar trabalhar mais, sob pena de a conta estourar.
Na educação, Zema declarou enfrentar resistência sindical para ampliar escolas cívico-militares em Minas. Disse que não pretende acabar com o modelo tradicional, mas quer aumentar gradualmente a oferta como “opção” às famílias, associando o formato a mais disciplina, cobrança e segurança no ambiente escolar.
Também apoiou restrições ao uso de celular em sala, afirmando que o aparelho distrai alunos — e adultos — e consome tempo.
Ao tratar de políticas sociais, Zema disse considerar o Bolsa Família “importantíssimo”, especialmente para mulheres com filhos pequenos sem renda. Mas propôs mudanças: exigência de frequência escolar das crianças como condição rigorosa e, para beneficiários adultos aptos ao trabalho, uma contrapartida semanal de serviço comunitário.
Ele ainda sugeriu criar um incentivo financeiro para quem conseguir emprego formal e qualificado — citando a ideia de um “prêmio” para estimular a transição do programa para o trabalho registrado. O argumento é que o emprego formal aumentaria arrecadação e reduziria a dependência do benefício.
Questionado sobre governabilidade e relação com o centrão — tema em que se citou a experiência de Bolsonaro, que prometeu não se aliar e acabou cedendo — Zema disse que, em Minas, não “compra” apoio. Afirmou atuar por alinhamento público: quem estiver com o governo, vota os projetos; em troca, ele oferece presença política e trabalho conjunto, não recursos “toma lá dá cá”.
Sobre emendas parlamentares, reconheceu o problema e defendeu limites, dizendo que o modelo atual incentiva pulverização e ações eleitoreiras. Afirmou que tenta direcionar emendas para obras estruturantes a partir de um “cardápio” de prioridades.
Na parte local, Zema elogiou o vereador recifense Eduardo Moura, apontando potencial de crescimento do Novo em Pernambuco e dizendo que a definição sobre candidatura majoritária em 2026 ainda depende do partido no estado e do próprio parlamentar.
O governador também relatou que não encontraria a governadora Raquel Lyra por causa de agenda internacional de última hora, segundo ele, relacionada a tratativas sobre penitenciárias.
Para fechar, Zema explicou que sua agenda em Pernambuco inclui encontro com empresários (como o grupo Atitude) e repetiu o discurso de “governador chão de fábrica”: viajar, ouvir e identificar gargalos, muitas vezes resolvidos, segundo ele, não por “ideias brilhantes”, mas por reduzir burocracias e “atrapalhar menos”.
Em resumo, com o mote de uma direita que se junta no segundo turno, Zema tentou vender a imagem de gestor austero, antiprivilégios e “técnico” — enquanto mira o governo Lula na economia e na condução fiscal, buscando transformar juros altos e gasto público em um dos principais combustíveis políticos da sua candidatura.
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