Jamildo Melo | Publicado em 12/01/2026, às 17h36 - Atualizado às 17h49
A ascensão de Delcy Rodríguez ao centro do poder em Caracas, após ser alçada à presidência interina com aval do Tribunal Supremo de Justicia, representa mais do que uma solução provisória para a crise política venezuelana. Para o analista político Márcio Coimbra, trata-se da consolidação da chamada “aristocracia civil” do chavismo em um momento de transição de alto risco.
“Delcy Rodríguez não é uma figura acidental. Ela herda o capital simbólico do chavismo civil e combina isso com uma formação tecnocrática que a diferencia da elite militar”, afirma Coimbra. Segundo ele, a presidente interina atua como “pivô de uma transição delicada, entre a retórica anti-imperialista e o pragmatismo exigido pela diplomacia financeira internacional”.
De acordo com o analista, o núcleo do poder hoje se organiza em torno de Delcy e de seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. “Eles formam um bloco tecnocrata que se contrapõe à ala mais ideológica e radical do chavismo, representada por Diosdado Cabello”, avalia, em artigo enviado ao site Jamildo.com.
A sustentação política desse arranjo, no entanto, depende das Forças Armadas. “Sem comando direto de tropas, a sobrevivência de Delcy passa necessariamente pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, que funciona como fiador do chavismo militar”, diz Coimbra.
O cenário externo amplia as incertezas. Delcy está sob sanções dos Estados Unidos desde 2018 e enfrenta o impacto das delações do ex-chefe de inteligência Hugo “El Pollo” Carvajal, além da possibilidade de colaboração judicial de Nicolás Maduro em território americano. “Esses depoimentos funcionam como um veneno de ação lenta, com potencial para expor redes financeiras ilícitas e comprometer sua viabilidade como interlocutora internacional”, afirma.
Para Coimbra, Delcy tenta se projetar diante de Washington como uma gestora técnica e moderada. “Ela precisa se apresentar como alguém capaz de pacificar o país e garantir estabilidade energética, especialmente por meio da PDVSA”, analisa.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que a dependência do aparato de inteligência cubano pode limitar a credibilidade de qualquer mudança. “Uma transição que mantenha o cordão umbilical com Cuba tende a ser vista como apenas cosmética”.
Na avaliação do analista, os Estados Unidos não enxergam Delcy como aliada, mas como um instrumento de conveniência. “Ela pode até libertar presos políticos para sinalizar boa vontade, mas dificilmente desmontará o aparato repressivo, sob risco de sofrer reação da casta militar”, afirma.
Segundo Coimbra, o caminho para uma eventual redemocratização venezuelana será necessariamente lento. “A aposta é em uma distensão gradual, que torne o regime funcional e previsível para o mercado global, evitando uma ruptura abrupta que possa levar a uma guerra civil”, conclui.
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