Cynara Maíra | Publicado em 12/10/2026, às 13h23 - Atualizado às 13h43
O cineasta, escritor e professor Jomard Muniz de Britto faleceu na madrugada desta segunda-feira (12), aos 89 anos, no Recife. Ele estava internado desde o sábado (10) no Hospital Unimed, na Ilha do Leite, com quadro de broncopneumonia e infecção pulmonar. De acordo com a família e a equipe médica, a morte decorreu de complicações da doença de Parkinson, diagnosticada no início de 2020.
O velório começou na manhã desta segunda-feira na Capela do Cemitério de Santo Amaro, no Centro da capital pernambucana. O sepultamento está marcado para as 16h, no mesmo local.
A morte do intelectual motivou manifestações. O prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), divulgou nota de pesar nas redes sociais: "Sempre ativo e provocador, Jomard dedicou a vida à arte e a fazer do Recife uma referência de criatividade e pensamento crítico".
A Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) também lamentaram o falecimento, destacando a restauração recente de parte de seu acervo em película, exibido no Cinema São Luiz em 2025.
Nascido em 1937 na Rua Imperial, no bairro de São José, Jomard formou-se em Filosofia pela antiga Universidade do Recife (atual UFPE). Ele iniciou a carreira como professor no ensino básico e integrou a equipe inicial do Sistema de Educação de Adultos nos anos 1960, a convite do educador Paulo Freire.
Com o golpe militar de 1964, Jomard foi preso e levado ao Forte das Cinco Pontas, onde dividiu cela com o líder comunista Gregório Bezerra e o advogado Joel Câmara. Aposentado compulsoriamente da universidade pela repressão, mudou-se para a Paraíba e lecionou na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) até a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968.
Nas décadas de 1970 e 1980, Jomard despontou como articulador da contracultura e da Tropicália no Nordeste. Ele criou o conceito de "Pernambucália" para se contrapor ao conservadorismo regional e manteve debates públicos com nomes tradicionais da cultura do estado, como o dramaturgo Ariano Suassuna.
No campo audiovisual, tornou-se a principal referência local da "Geração Super-8", formato acessível utilizado para viabilizar produções independentes durante a ditadura militar. Ao longo da trajetória, publicou dez livros, assinou peças de teatro e dirigiu mais de 30 produções audiovisuais, entre curtas-metragens e registros performáticos.
Entre as principais obras do cineasta estão:
O Palhaço Degolado (1976)
Discurso Classe Média (1977)
Alto Nível Baixo (1977)
Inventário de um Feudalismo Cultural (1978)
Jogos Labiais Libidinais (1979)
Recinfernália
Esperando João
Arrecifes do Desejo