Jamildo Melo | Publicado em 21/10/2026, às 16h21
Uma ameaça à democracia
Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com
No próximo domingo, Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, ou Flávio Bolsonaro, do PL, será eleito o novo presidente da República.
O petista representa uma frente de centro-esquerda que, desde o fim da ditadura, em 1985, disputa eleições sem nunca afrontar as regras democráticas.
Flávio Bolsonaro é o líder de um consórcio conservador, controlado pela extrema direita que, derrotado nas eleições em 2022, tentou dar um golpe de Estado em 2023. Seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, encabeçou a intentona.
Durante a campanha, o filho Zero 1 – como também é chamado na intimidade – fez centenas de discursos, concedeu dezenas de entrevistas e participou de um debate televisivo com seu adversário.
Em nenhum momento, sob nenhuma circunstância, Flávio Bolsonaro obrou qualquer declaração, mesmo um simples comentário, a respeito da importância da eleição para o fortalecimento da democracia no Brasil.
Na última entrevista, à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, só admitiu que respeitaria o resultado das urnas – se derrotado – depois de ser insistentemente questionado.
No debate na TV Bandeirantes, elevou Jair Bolsonaro à condição de “maior presidente do Brasil”.
O ex-presidente, como se sabe, cumpre pena de 27 anos e 4 meses, junto com os comandantes militares aliados no assalto à democracia.
Flávio Bolsonaro antecipou que todos serão anistiados e que, caso seja eleito, o ex-presidente subirá ao seu lado a rampa do Palácio do Planalto.
O resultado da eleição continua imprevisível, com empate numérico entre os dois candidatos, conforme seguidas pesquisas de intenção de voto.
Além de vencer por uma margem de 2 pontos percentuais no primeiro turno, o presidenciável da direita elegeu a maioria das bancadas no Senado e na Câmara dos Deputados.
O PL somou 28 cadeiras no Senado para a legislatura que começa em 2027, mais do que as 27 que já detém atualmente.
Desempenho similar o partido alcançou na Câmara dos Deputados, onde elegeu 121 parlamentares, 20% acima da bancada atual.
Somando os eleitos por partidos conservadores próximos ao PL – como o PP, União Brasil, Podemos e Novo –, o consórcio da direita já teria o mínimo necessário para influenciar a agenda das duas Casas legislativas: 50 dos 81 senadores e 387 dos 513 deputados federais.
Um mix formado por associados ao crime organizado, milicianos, matadores de aluguel, traficantes, bicheiros e da máfia dos combustíveis. Além, é claro, de circunspectos senhores que votam com qualquer governo.
Na organização do mix contribuiu Flávio Bolsonaro.
Uma assessora sua negociou pessoalmente com o miliciano Robson Calixto, vulgo “Peixe”, o repasse de emenda parlamentar do presidencial no valor de R$ 200 mil.
Em fevereiro deste ano, “Peixe” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a nove anos de prisão em regime fechado, por participação nos assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018.
Em 2007, então deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro subiu à tribuna para defender as milícias como “um novo tipo de policiamento”.
Ele ainda afirmou que “não se importaria” de pagar alguma mensalidade às quadrilhas de milicianos “para ter mais segurança”.
O presidenciável sabia do que falava.
Depois de condecorar vários meliantes “por serviços prestados ao povo fluminense”, empregou em seu gabinete familiares de um dos mais sanguinários matadores do País, Adriano da Nóbrega, líder da milícia Sindicato do Crime.
Nóbrega foi fuzilado no interior da Bahia, em operação típica de queima de arquivo.
Quais as prioridades do presidenciável apadrinhado pela extrema direita caso vença a eleição?
Primeiro, anistiar o pai de todas as condenações, de forma a torná-lo elegível para a disputa presidencial de 2030.
Em seguida, promover o impeachment de ministros do STF considerados inimigos dos bolsonaristas, a começar por Alexandre de Moraes, relator do processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Por fim, decretar um corte de R$ 200 bilhões no orçamento de 2027, o que atingiria os programas sociais do governo, penalizando a população mais pobre.
Para observadores, essas iniciativas podem precipitar uma crise política, econômica e social, logo no início do próximo ano.
Ela envolveria o Executivo, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e instituições sociais ligadas à oposição com grande capacidade de mobilização.
De princípio, ficariam à parte as Forças Armadas, cujos comandantes seriam escolhidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro entre oficiais de sua confiança.
Flávio Bolsonaro nega que o seu irmão Eduardo – condenado a quatro anos de prisão no Brasil e foragido nos Estados Unidos – será o novo ministro das Relações Exteriores.
O argumento de Eduardo se baseia em seus contatos com a direita norte-americana, com a qual articulou pressões para que Donald Trump decretasse o tarifaço contra os exportadores brasileiros para o mercado dos Estados Unidos.
Ex-deputado federal, Eduardo foi cassado por excesso de faltas às sessões legislativas.
O presidenciável da direita não tem qualquer experiência para governar o Brasil. Seu currículo é uma longa sucessão de suspeitas.
Começam com a apropriação indébita de rendimentos de funcionários de seu gabinete, as famosas “rachadinhas”; passa por uma incrível loja de chocolates, que batia recordes de vendas durante todos os meses do ano, superiores ao mês da Páscoa, e a compra de uma mansão em Brasília por R$ 6 milhões, valor incompatível com seus rendimentos.
Nos feitos, destaca-se o pedido de empréstimo de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, o maior fraudador bancário da história do Brasil, para produzir uma cinebiografia do pai. A operação está sendo investigada pela Polícia Federal.
Há mais: em 2017, ele publicou um livro em que narra a biografia de Jair Bolsonaro.
Nas 200 páginas nega ter havido um golpe em 1964, exalta a ditadura militar e elogia o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado por torturas a presos políticos, o que o presidenciável contesta: “Ustra foi um homem correto, honrado, que cumpriu seu papel de defensor da Pátria”.
É esse candidato, apoiado pela extrema direita, que os democratas têm o dever de derrotar, em uma frente liderada por Lula.
Aos 80 anos, disputando o quarto mandato presidencial, o petista enfrenta seu maior desafio. Entretanto há espaço para virada no segundo turno.
O desempenho da direita impressionou no primeiro turno, contudo não o suficiente para consolidar a impressão de que a eleição está resolvida, e os golpistas de 2023 anistiados.
Lula aprendeu a enfrentar adversidades: foi eleito presidente depois de três derrotas, reeleito no meio do terremoto do Mensalão e voltou à Presidência depois que a Lava-Jato parecia ter sepultado a sua carreira.
Nos cálculos dos estatísticos da esquerda, Lula precisa conquistar cerca de 10 milhões de votos para vencer no segundo turno.
Eles estariam entre os 32 milhões de eleitores que se abstiveram no primeiro turno, na ampliação de sua vantagem no Nordeste e na redução de sua desvantagem no Sudeste, que reúne o maior contingente eleitoral do País.
Existe ainda uma grande aposta nas mobilizações de rua crescentes em todas as capitais e grandes cidades e no trabalho nas redes socais, mais voltado para os eleitores jovens, o que faltou no primeiro turno.
Na antevéspera das urnas eletrônicas de domingo, sabemos todos que estamos escolhendo um caminho para o Brasil nos próximos anos.
Um país conduzido por herdeiros do golpismo, com poderes autoritários e sem compromisso com a democracia, ou outro caminho, em que as diferenças possam se expressar, disputar rumos e construir acordos dentro das regras democráticas compartilhadas.
Não será difícil escolher.