Redação Jamildo.com | Publicado em 08/06/2026, às 12h22 - Atualizado às 12h35
A Copa de Flávio Bolsonaro
Por Thomas Traumann, em sua newsletter
Flávio Bolsonaro não é Jair. Não tem o carisma, os votos e a autoridade do pai. Por isso, as suas crises demoram mais a terminar, as explicações são recebidas com desconfiança e a voz de comando é, muitas vezes, ignorada.
Com o noticiário político prestes a ser eclipsado pelo futebol a partir de quinta-feira (11), com o início da Copa do Mundo, Flávio Bolsonaro vai ganhar quase 50 dias para superar as três crises que hoje atravancam sua campanha. Sobre duas delas, ele tem, neste momento, pouco ou nenhum controle: as novas revelações sobre o seu relacionamento milionário com o banqueiro preso Daniel Vorcaro e o novo tarifaço dos EUA contra o Brasil.
A terceira depende só dele: remontar o campo político da oposição. Se continuar com um time desunido até o final da Copa, quando a campanha eleitoral começa de verdade, Flávio Bolsonaro passará a depender da sorte para ser eleito.
Os dois principais porta-vozes do candidato, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o coordenador da campanha, Rogério Marinho, não se suportam.
O irmão Eduardo é capaz de dizer a cada semana uma imbecilidade maior do que na anterior.
A última foi defender o sistema de pagamentos americano Zelle — mais caro, mais lento e mais inconfiável que o Pix — e dar razão ao discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que a família Bolsonaro se submete aos interesses dos EUA. O bolsonarismo não tem candidato em Minas Gerais.
No estado do Rio, sem a máquina do governo, será quase impossível repetir a goleada de 60% dos votos de Jair Bolsonaro em 2022.
Em São Paulo, ninguém sabe dizer quanto a mágoa de Tarcísio de Freitas em não ter sido escolhido candidato irá influenciar seu empenho a favor de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
Sem receber apoio de Flávio quando foi revelada sua relação incestuosa com Daniel Vorcaro, o presidente do PP, Ciro Nogueira, é um poço de mágoas.
Atacada pelos enteados, Michelle Bolsonaro até agora não anunciou apoio a Flávio e, se o fizer, possivelmente será apenas formal.
O resultado desse furdunço foi o desastre da estreia de Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus, na quinta-feira (4), em São Paulo, uma das principais manifestações evangélicas do país. Menos de 40 mil pessoas foram ao evento, que nas edições anteriores reuniu centenas de milhares de fiéis (os organizadores estimaram dois milhões de presentes em 2024 e 2025).
O governador Tarcísio de Freitas discursou ao lado do candidato, mas não postou foto conjunta nas redes sociais.
O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do processo de Vorcaro, evitou ficar ao lado do candidato.
No início da marcha, o apóstolo Estevam Fernandes, da igreja Renascer em Cristo, se deixou filmar conversando com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no telefone do advogado-geral da União, Jorge Messias.
No discurso, Flávio Bolsonaro repetiu a cantilena do pai de que esta será uma eleição entre o bem (ele) contra o mal (Lula), mas nem de longe com a mesma repercussão.
Mesmo depois da eclosão do patrocínio do dono do Master para o filme Dark Horse, as pesquisas mostram Flávio Bolsonaro com quase 30 pontos percentuais a mais que os terceiros colocados.
Nesta quarta-feira (10), a Genial/Quaest divulga a primeira sondagem mostrando os efeitos do novo tarifaço dos EUA, mas é improvável uma mudança radical sobre os números de maio. Tendo herdado um piso alto de votos do pai, Flávio Bolsonaro precisa administrar a vantagem, chegar ao segundo turno e, então, unir toda a oposição contra Lula. Isso é mais fácil de falar do que fazer.
Se ao final da Copa, quando os partidos fazem as convenções, Bolsonaro não tiver o apoio do PP e do União Brasil, ele poderá ter menos tempo de propaganda no rádio e na TV do que Lula. Embora as redes sociais sejam fundamentais, é coisa de amador desprezar o poder do horário eleitoral para construir a justificativa de cada eleitor para votar em seu candidato.
Nas estimativas dos marqueteiros, a aliança em torno de Lula terá em torno de 23% do tempo de TV. Isolado, o PL de Bolsonaro terá 18%.
A sangria que pode acabar com a candidatura antes de começar está dentro de casa. Eduardo Bolsonaro segue sendo o camisa dez do time de Lula, reforçando a cada novo vídeo um motivo para o eleitor independente não querer a volta dos Bolsonaros ao poder.
O estudado silêncio de Michelle diz mais que mil discursos. É impossível Flávio posar de “Bolsonaro domesticado” se continuar ignorando o peso político da madrasta, que tem potencial eleitoral equivalente ao dele, prestígio sincero entre evangélicos e a imagem de ser a única da família que de fato se importa com a saúde de Jair.
A disputa de poder entre Rogério Marinho e Valdemar Costa Neto está rachando a campanha do PL. Num impulso tresloucado, Marinho protocolou no Senado uma proposta que muda a legislação trabalhista para favorecer os empresários, dando à campanha de Lula a razão factual para se colocar como a única que defende os interesses dos empregados.
Valdemar conseguiu fazer com que os deputados do PL não cometessem haraquiri e votassem a favor da proposta do governo do fim da escala 6x1, mas o projeto de Rogério Marinho segue no Senado como um presente para Lula. Flávio Bolsonaro não conseguiu mediar o confronto.
Está evidente que, embora seja senador pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro não tinha um plano B para a hipótese de o presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), não assumir o governo depois da renúncia do ex-governador Cláudio Castro (PL). Sem a máquina para negociar o apoio dos prefeitos, o bolsonarismo é um protagonista como qualquer outro no Estado do Rio.
Se o ex-prefeito Eduardo Paes, candidato de Lula, vencer as eleições no primeiro turno, como sugerem as pesquisas, a situação de Bolsonaro no estado torna-se crítica.
Em Minas Gerais, Flávio Bolsonaro e Lula são esnobados pelos líderes nas pesquisas, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e o ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT). Sem um candidato a governador forte, a campanha de Flávio Bolsonaro vai depender do empenho do deputado Nikolas Ferreira (PL), o mesmo que Eduardo Bolsonaro fala mal dia sim, outro também.
Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) pode repetir quantas vezes quiser que nunca quis ser candidato a presidente e, por isso, nem poderia guardar mágoas pela escolha de Flávio Bolsonaro como candidato. Nem os quadros dos ex-governadores pendurados nas paredes do Palácio Bandeirantes acreditam.
Na semana passada, a Polícia Civil de São Paulo cumpriu mandados de busca e apreensão em inquérito sobre suspeitas de corrupção nos contratos entre as empresas da produtora do filme “Dark Horse” e a prefeitura. Sem argumentos para defender o não cumprimento dos contratos, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que a investigação era “perseguição política”. Não colou.
Os problemas internos da campanha são a fase de grupos da Copa do Mundo particular de Flávio Bolsonaro. A primeira eliminatória é o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
Nesta semana, a Procuradoria-Geral da República deve finalmente responder se concorda com o pedido do ministro do STF Alexandre de Moraes de que a investigação sobre o patrocínio de US$ 10 milhões de Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse” deve ser incluída no inquérito sobre coação do julgamento de Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal suspeita que parte do dinheiro foi usado para sustentar Eduardo Bolsonaro nos EUA e, indiretamente, ajudar suas ações para interferir no julgamento. Ao programa “Estúdio i”, da GloboNews, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, defendeu que a investigação sobre o filme corra em separado do inquérito principal do Banco Master, relatado pelo ministro André Mendonça.
A Polícia Federal espera receber a nova delação de Daniel Vorcaro nesta semana. De acordo com Débora Bergamasco, da CNN Brasil, a versão deve incluir os motivos que levaram Vorcaro a ser tão generoso com os Bolsonaros, o caminho do dinheiro via EUA e sua conversa com Flávio Bolsonaro depois da primeira prisão, em novembro de 2025.
A segunda eliminatória de Flávio Bolsonaro é a imprevisibilidade de Donald Trump. Na próxima semana, Lula viaja para Evian, na França, para tentar conseguir, durante o encontro do G7, uma reunião com Donald Trump. Lula vai tentar adiar o novo tarifaço de 25% que entra em vigor em julho. É um ganha-ganha para Lula. Se conseguir o adiamento, mostra a sua influência. Se não, vai poder culpar os Bolsonaros pelos prejuízos para as empresas exportadoras brasileiras.
Se sobreviver a estas três fases, Flávio Bolsonaro chega ao fim da Copa com os dois pés na final, o segundo turno em outubro. E, na final, a oposição terá um discurso único: Flávio Bolsonaro não é Lula.
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