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Flávio Bolsonaro pode perder? Cinco riscos que podem custar a Presidência

Jamildo Melo | Publicado em 23/10/2026, às 10h23 - Atualizado às 12h34

Flávio Bolsonaro precisa transformar a insatisfação com Lula em confiança na sua capacidade de governar; antipetismo e apoio político não garantem maioria - Carlos Moura/Agência Senado
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Flávio Bolsonaro pode perder uma eleição mesmo chegando ao segundo turno à frente de Lula? Pode.

Assim como Lula pode perder mesmo tendo a Presidência, experiência de governo e uma base eleitoral importante.

Hoje, vamos examinar cinco problemas que podem levar Flávio Bolsonaro a uma derrota.

Alguns dependem do candidato. Outros, da capacidade de reação do adversário.

O primeiro problema é acreditar que o voto contra Lula basta para construir uma maioria a favor de Flávio.

O antipetismo tem força. Há brasileiros que querem mudança por causa da economia, da segurança, da corrupção ou do desgaste com o presidente.

Mas estar insatisfeito com Lula não significa confiar em Flávio Bolsonaro.

Um eleitor pode criticar o governo e ter dúvidas sobre a alternativa. Pode querer mudança, mas recear que a troca traga mais conflitos.

É nesse eleitor que uma disputa apertada pode ser decidida.

O sobrenome Bolsonaro ajuda Flávio a mobilizar uma base fiel. Mas também traz a rejeição de quem avalia negativamente o governo de seu pai.

A pesquisa Datafolha realizada de 13 a 15 de outubro mostrou rejeição de 46% a Lula e de 44% a Flávio, com margem de erro de dois pontos percentuais.

A rejeição é um problema dos dois lados.

Para Flávio, o desafio é mostrar por que alguém que não é bolsonarista deveria confiar nele.

Como escolheria ministros? Como reagiria a uma crise? Como se relacionaria com quem pensa diferente?

Sem essas respostas, o eleitor pode enxergar apenas mais um capítulo da disputa entre a família Bolsonaro e o PT.

A herança política ajuda. Mas, para conquistar a Presidência, é preciso demonstrar capacidade própria.

O segundo problema é não transformar o desejo de mudança em confiança sobre a vida prática.

O eleitor escuta discussões sobre dívida pública, orçamento e juros. E traduz tudo para perguntas simples.

Meu salário vai render mais? Vai aparecer emprego? A prestação vai caber no bolso? O atendimento de saúde vai melhorar?

Uma candidatura de oposição tem facilidade para apontar o que está ruim.

O trabalho mais difícil é explicar como pretende melhorar.

Prometer reduzir impostos, ampliar benefícios, investir e equilibrar as contas exige escolhas.

De onde virá o dinheiro? O que será prioridade? O que dependerá do Congresso?

Se a campanha fala em cortar despesas, precisa esclarecer quais. Se promete preservar serviços e benefícios, precisa explicar como financiá-los.

Flávio tem uma trajetória concentrada no Legislativo. Isso não o impede de governar, mas aumenta a importância de apresentar uma equipe e demonstrar capacidade administrativa.

O risco aparece quando o cidadão conclui: estou descontente com o governo, mas não sei o que acontecerá se esse candidato ganhar.

Essa dúvida pode favorecer quem já está no cargo.

O terceiro problema é perder credibilidade no discurso de combate à corrupção.

Quem faz da honestidade uma bandeira aceita uma cobrança maior sobre a própria trajetória.

Não basta apontar suspeitas contra o adversário. É preciso responder às perguntas sobre si mesmo, com documentos e explicações claras.

Flávio enfrenta há anos questionamentos relacionados ao caso conhecido como rachadinha, envolvendo seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio.

Ele nega irregularidades. É indispensável distinguir suspeitas, acusações, decisões processuais e eventual responsabilização.

Mas a disputa eleitoral também envolve confiança.

Um eleitor pode não acompanhar os detalhes de um processo e querer uma explicação compreensível sobre o que aconteceu.

Isso não autoriza condenação antecipada. Mas autoriza cobrança.

Se o candidato responde a toda pergunta com uma acusação contra Lula, pode deixar sem resposta justamente quem ainda está avaliando seu voto.

O risco é parecer disposto a exigir do adversário uma transparência que não oferece sobre a própria trajetória.

Essa percepção pode afastar quem escolheu a oposição pela promessa de combater a corrupção.

O quarto problema é deixar dúvidas sobre sua atenção aos problemas sociais e regionais do país.

O pequeno empresário preocupado com impostos e o trabalhador que depende do transporte público podem querer mudanças.

Mas esperam respostas para problemas distintos.

A mãe que precisa de creche, o aposentado na fila de um exame e o jovem procurando emprego querem saber onde entram no projeto de governo.

Se uma candidatura fala com clareza sobre o mercado financeiro, mas de maneira vaga sobre serviços públicos, deixa essa conversa incompleta.

Propostas econômicas e políticas sociais podem caminhar juntas. O candidato precisa explicar como.

Como o crescimento vai melhorar o salário? Como o equilíbrio das contas vai ajudar a saúde? O que acontecerá com quem precisa de assistência agora?

No Nordeste, esse desafio tem um peso particular.

O erro seria tratar a região apenas como um obstáculo eleitoral, sem reconhecer suas demandas e diferenças internas.

Também seria um erro reduzir o voto em Lula ao recebimento de benefícios.

As pessoas escolhem por uma combinação de experiência, identidade, expectativas e avaliação dos candidatos.

Flávio pode perder oportunidades se sua campanha não demonstrar que compreende essas razões.

O quinto problema é confundir força política, presença nas redes e vantagem nas pesquisas com eleição resolvida.

Uma campanha pode reunir governadores, parlamentares, empresários e influenciadores. Tudo isso conta.

Mas apoio de liderança não significa transferência automática de voto.

O eleitor pode escolher um governador de direita e votar em Lula. Pode apoiar um prefeito aliado do PT e escolher Flávio.

O voto pertence ao cidadão.

Nas redes sociais, o cuidado é semelhante.

Um vídeo com milhões de visualizações pode atingir principalmente quem já concordava com o candidato ou circular por causa de uma polêmica.

O número, sozinho, não revela quantos votos foram conquistados.

E pesquisa é um retrato sujeito a limites.

Em uma disputa apertada, o excesso de confiança pode reduzir o esforço para conversar com indecisos, esclarecer propostas e mobilizar o eleitor para comparecer.

Também pode levar a campanha a subestimar a reação do adversário.

Lula tem uma trajetória conhecida e instrumentos políticos para defender seu governo. Pode disputar votos até o fim.

Esses cinco problemas podem se combinar.

A falta de identidade própria pode aumentar a rejeição. Propostas pouco claras e respostas insuficientes podem reduzir a confiança.

A distância dos problemas sociais pode limitar o crescimento. E o excesso de confiança pode impedir a correção dos erros.

Nada disso torna a derrota inevitável.

Flávio tem uma candidatura competitiva. A questão é saber se conseguirá convencer uma maioria de que reúne condições para governar.

Porque, no momento de escolher, parte do eleitorado vai além da pergunta sobre quem deseja tirar do poder.

Vai querer saber a quem pode entregar o país.

Lula Eleições 2026 Flávio Bolsonaro

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