Ricardo Leitão: Dois passos à frente, outro para trás

Redação Jamildo.com | Publicado em 26/05/2026, às 15h32 - Atualizado às 16h06

Apesar do desgaste provocado pelas ligações de Flávio Bolsonaro com o caso Daniel Vorcaro, o senador segue competitivo contra Lula nas pesquisas presidenciais - Divulgação
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Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com

Havia uma tensa e silenciosa torcida, entre petistas e aliados, para que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República sofresse um forte abalo nas próximas pesquisas de intenção de voto.

As razões eram compreensíveis: enrolado na teia de corrupção do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o senador confirmara publicamente ter pedido milhões de reais a Vorcaro para concluir um filme laudatório sobre o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, divulgada a primeira pesquisa, do Datafolha, a torcida se frustrou.

No primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 40% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro com 31%, uma vantagem de nove pontos percentuais para o petista. Na pesquisa anterior, Lula tinha 38% e o senador 35%.

Os movimentos ascendentes e descendentes se deram dentro da margem de erro da amostragem, de 2%. No segundo turno, o petista pontua com 47% e o senador com 43%. Ou seja: não houve nenhum forte abalo na candidatura de Flávio Bolsonaro, que permanece como o adversário mais competitivo contra a esquerda.

Uma só amostragem, contudo, não indica uma tendência do voto. Ela só se firma quando repetida ao longo de uma série de amostras, que teriam a condição de antecipar a decisão final do eleitor na urna eletrônica. São cinco meses até lá, havendo dessa forma tempo suficiente para ajustes táticos e estratégicos na campanha.

O problema de Flávio Bolsonaro é se manter vivo ao longo desses cinco meses, sem saber o que ainda pode vir das investigações da Polícia Federal sobre Daniel Vorcaro, ao tempo que é ameaçado pelo êxodo de aliados em busca de parcerias menos tóxicas.

Como ensinam os veteranos, carrega-se o defunto até a porta do cemitério, mas ninguém se joga na cova com ele.

O papai pediu paciência ao primogênito. Mandatário incontestável da direita, ele avisou aos interessados que a candidatura do senador será mantida, quaisquer que sejam as contingências. E mais: não apoiará outro nome que não o do filho.

Cumprindo pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado em 2023, o ex-presidente possui cacife para impor seu jogo, que tem duas vertentes.

Na primeira trabalha com a vitória de Flávio, o que fortaleceria sua posição na direita; na segunda, admite a derrota do senador, mas prevê que a campanha seria capaz de eleger uma maioria conservadora de deputados federais e senadores.

Nesse caso, a direita seria hegemônica no Congresso, em condições de eleger as mesas diretoras nas duas Casas.

Entretanto, no meio do caminho há Daniel Vorcaro, autor da maior fraude bancária da história do Brasil, a quem o senador chama de “meu irmão.” Vorcaro, ex-proprietário do banco Master, deu um golpe estimado em R$ 60 bilhões e, até dezembro passado, já repassara R$ 62 milhões para o filme sobre Jair Bolsonaro.

O ex-banqueiro está preso em Brasília e abriu negociação para um acordo de delação premiada.

É a hora em que se acendem todos os alertas de perigo. Um fantástico golpe de R$ 60 bilhões só se realizou com a participação ou omissão de líderes do mercado financeiro, políticos graúdos de todos os matizes e funcionários públicos corruptos.

Não por acaso, o Congresso não aprova a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o banco Master, seus feitos e fatos.

A pressão para que Vorcaro fale é grande e aumenta desde que parentes seus foram presos pela Polícia Federal. É inevitável que ele trate, em sua possível delação, sobre o “irmão” Flávio Bolsonaro.

É obviamente inconveniente, no mínimo, para a candidatura presidencial do senador.

Ademais, continuam em curso as investigações da Polícia Federal, apoiadas pela Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal que, em seus achados, pode superar as informações de Vorcaro em sua delação.

Apesar de toda essa barreira de riscos, 88% dos eleitores de Flávio Bolsonaro querem que ele continue na disputa, constatou a pesquisa Datafolha antes aqui citada.

Tamanha fidelidade explica, por enquanto, por que ele continua nos calcanhares de Lula, manejando o antipetismo com o que se identifica um terço do eleitorado conservador. Sempre é bom lembrar para que sejam descalçados eventuais saltos altos da esquerda: Lula venceu Jair Bolsonaro em 2022 por menos de 2% de votos.

E Luiz Inácio da Silva, com 80 anos, de volta às ruas, disputando o quarto mandato presidencial? Os mais prudentes sugerem que seria melhor que ele buscasse a vitória no primeiro turno.

Todas as amostragens divulgadas, além do Datafolha, apontam que o presidente teria dificuldades no segundo turno, qualquer que seja o candidato da direita. Porém vencer no primeiro turno significaria ganhar votos dos indecisos e até de bolsonaristas arrependidos com o envolvimento de Flávio Bolsonaro com a corrupção do escândalo do banco Master. Ou mesmo conquistar o voto de outros candidatos da direita, adversários dos Bolsonaro nesse campo.

Em conta na ponta do lápis, tudo é possível, além dos oceanos, mares e lagos que haverão de passar debaixo de muitas pontes. Os dados continuam rolando na mesa. O próximo lance são as convenções partidárias em julho, para a escolha final dos candidatos. Nada está certo, além do dever democrático de derrotar, mais uma vez, a direita golpista.

Dois passos à frente, um passo para trás, mas sempre avançaremos.

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