Jamildo Melo | Publicado em 07/10/2026, às 17h58
A eleição para deputado federal em Pernambuco produziu uma mudança que vai além da renovação de nomes. Mulheres que ainda não integravam a bancada federal conquistaram espaço dentro de partidos e federações e, pela ordem de votação das chapas, contribuíram diretamente para deixar fora da Câmara políticos com maior tradição eleitoral.
Os três casos mais claros ocorreram no PSB, na Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, e na Federação União Progressista, que reúne União Brasil e PP.
Numa eleição proporcional, não é tecnicamente correto afirmar que uma candidata individualmente "tirou" o mandato de outro concorrente. As vagas são conquistadas pelo desempenho conjunto do partido ou da federação e depois distribuídas aos candidatos conforme votação e regras do sistema eleitoral. No entanto, dentro de cada chapa, a posição na votação foi decisiva para determinar quem entrou e quem ficou na suplência.
No PSB, foram conquistadas quatro cadeiras. Os eleitos foram Pedro Campos, com 261.555 votos; Felipe Carreras, com 148.971; Gabriel Porto, com 114.860; e Eliane Soares, com 102.396 votos.
Deputado federal desde 2023 e anteriormente deputado estadual por dois mandatos, Lucas Ramos recebeu 71.964 votos e terminou como suplente. Eliane teve 30.432 votos a mais que o parlamentar.
Assim, se Lucas tivesse ultrapassado Eliane na votação interna — mantidas as demais condições do resultado — seria ele, e não ela, quem ocuparia a quarta cadeira socialista.
O resultado também reduziu a bancada do PSB: o partido havia conquistado cinco cadeiras em 2022 e ficará com quatro a partir de 2027.
A disputa mais apertada entre os três casos aconteceu na Federação Brasil da Esperança.
O grupo formado por PT, PCdoB e PV conquistou quatro cadeiras. Foram eleitos Rosa Amorim, com 144.101 votos; Carlos Veras, com 133.118; Clodoaldo Magalhães, com 92.229; e Liana Cirne, com 85.039 votos.
O deputado federal Renildo Calheiros (PCdoB) recebeu 74.296 votos e ficou como suplente da mesma federação. A diferença para Liana foi de 10.743 votos.
O caso chama atenção porque Renildo ampliou sua votação em relação a 2022, quando havia sido eleito com 59.686 votos. Mesmo chegando a 74.296 votos em 2026, não conseguiu renovar o mandato porque terminou atrás dos quatro candidatos que ficaram com as cadeiras da federação.
Liana, por sua vez, aumentou sua votação para deputada federal de 57.284 votos, em 2022, para 85.039 neste ano.
Na Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, também foram conquistadas quatro cadeiras. A federação somou mais de 865 mil votos entre nominais e de legenda.
Foram eleitos Juliana de Chaparral (União), com 183.089 votos; Lula da Fonte (PP), com 147.913; Fernando Filho (União), com 124.147; e Clarissa Tércio (PP), com 110.608 votos.
O ex-prefeito de Petrolina e presidente estadual do União Brasil, Miguel Coelho, recebeu 102.595 votos. Mesmo ultrapassando a marca dos 100 mil votos, terminou como primeiro suplente da federação.
Juliana obteve 80.494 votos a mais que Miguel e terminou como a candidata mais votada de toda a federação. Mais importante para a definição da última cadeira: Clarissa Tércio, quarta colocada entre os eleitos do grupo, ficou 8.013 votos à frente de Miguel.
Portanto, no caso da União Progressista, é mais preciso dizer que a forte votação de Juliana ajudou a construir as quatro cadeiras da federação, mas quem estabeleceu diretamente a linha de corte que deixou Miguel na suplência foi Clarissa Tércio, também mulher.
Os três episódios fazem parte de uma mudança mais ampla. Pernambuco elegeu seis mulheres entre seus 25 deputados federais, contra três mulheres na bancada escolhida em 2022. A participação feminina, portanto, sobe de 12% para 24%.
Como mostrou o site Jamildo.com, as eleitas foram Juliana de Chaparral, Rosa Amorim, Clarissa Tércio, Iza Arruda, Eliane Soares e Liana Cirne. Clarissa e Iza foram reeleitas; as outras quatro não integravam a bancada federal escolhida quatro anos atrás.
Eliane Soares terminou à frente de Lucas Ramos dentro do PSB; Liana Cirne superou Renildo Calheiros dentro da Federação Brasil da Esperança; e Juliana de Chaparral teve votação muito superior à de Miguel Coelho na Federação União Progressista. Os três homens ficaram na suplência.
A eleição para deputado federal é proporcional. Portanto, votos dados a outros candidatos e à legenda também participam da definição do número de cadeiras conquistadas por cada partido ou federação. Não existe uma disputa individual equivalente a uma eleição majoritária.
O resultado mostra que candidaturas femininas ganharam espaço dentro das próprias chapas e alteraram a composição da bancada. No PSB e na federação PT-PCdoB-PV, Eliane e Liana ficaram diretamente acima de Lucas e Renildo na ordem que definiu os eleitos. Na União Progressista, Juliana liderou a chapa, mas a candidata que ocupou a quarta e última vaga à frente de Miguel foi Clarissa Tércio.
O efeito final é objetivo: a representação feminina de Pernambuco na Câmara dobrou, enquanto políticos com mandatos ou trajetória consolidada, como Lucas Ramos, Renildo Calheiros e Miguel Coelho, começarão a próxima legislatura fora das 25 cadeiras titulares do Estado.