Jumariana Oliveira | Publicado em 31/10/2026, às 07h30
Filiada ao PDT e com 16 anos de trajetória política, a ex-vice-prefeita do Recife, Isabella de Roldão, defendeu uma reorganização do campo conservador no Brasil e criticou a personalização excessiva das disputas políticas no país. Essa foi uma das análises feitas ao PodJá, em conversa com o jornalista Jamildo Melo, que vai ao ar às 14h deste sábado (31). A pedetista destaca que a direita precisa recuperar seu espaço no debate público, sem permanecer associada exclusivamente ao bolsonarismo.
“O Brasil precisa resgatar a direita. O conservadorismo precisa tomar seu espaço. Não existe um partido chamado Bolsonaro. Eu quero é que a gente chegue nesse nível de disputa de dois campos ideológicos muito bem definidos. Eu tenho muita esperança que este rapaz se autodeclarando presidente do Brasil, que ele fique lá pelos Estados Unidos. A gente tá falando de bandido que usa arma. De bandido que diz que bandido bom é bandido morto, como se nós tivéssemos o direito de tirar a vida de alguém. Esse extremo precisa ser reprimido. E as alas conservadora e progressista restabelecidas”, afirmou.
Ao analisar o cenário nacional, Isabella defendeu que as próximas disputas eleitorais sejam marcadas por diferenças ideológicas mais claras, mas com respeito entre os grupos. Também criticou a idolatria política e a transformação de lideranças em figuras acima de qualquer questionamento.
A ex-vice-prefeita fez questão de destacar sua identificação com o campo progressista, mas ressaltou que não é petista nem lulista. Disse que cresceu acompanhando a trajetória de Leonel Brizola, seguindo a tradição política da família, e que declarou apoio a Ciro Gomes nas duas eleições presidenciais disputadas por ele.
A experiência de 16 anos na vida pública também foi tema da entrevista. Isabella relatou episódios de machismo que enfrentou durante sua passagem pela Câmara Municipal do Recife e em outras funções.
Um dos casos lembrados aconteceu quando teve o microfone desligado enquanto discursava na tribuna da Câmara. Ao questionar a decisão, ouviu do então presidente da Casa que estaria falando sobre algo que não havia sido combinado. “Eu preciso combinar com vossa excelência para falar aqui?”, lembrou.
Para ela, a desigualdade não se limita ao acesso aos cargos, mas também está presente nas condições de participação e permanência das mulheres na política.
Ao aconselhar mulheres que desejam ingressar na vida pública, Isabella fez um alerta sobre a necessidade de estabelecer limites na rotina política, marcada por agendas extensas e compromissos que frequentemente avançam pela noite e pelos fins de semana.
“O conselho que eu dou para as mulheres na política e que estão entrando na política é: coloquem limites. Não entrem na agenda maluca dos homens, porque a gente adoece”, declarou.
A decisão de deixar a vida pública, anunciada recentemente, também foi um dos assuntos da entrevista. Após deixar a Secretaria de Trabalho e Qualificação Profissional do Recife na última quinta-feira, Isabella explicou que a decisão foi amadurecida ao longo de mais de um ano e está relacionada a uma reavaliação pessoal sobre os próximos passos da vida.
Segundo ela, a chegada aos 50 anos provocou uma mudança de perspectiva e abriu espaço para refletir sobre outras formas de contribuir com a sociedade.
“Como é que eu posso continuar contribuindo para a humanidade sem necessariamente estar dentro da política?”, questionou.
A ex-vice-prefeita ressaltou que não pretende abandonar o trabalho social. Para ela, o encerramento da trajetória na política institucional não significa abrir mão dos ideais e das causas que defendeu durante os 16 anos de atuação pública.
“Eu não estou abrindo mão de nada. Meus propósitos continuam na mesa, na minha vida. Meus ideais, os meus propósitos, a minha energia de serviço estão mais vivos do que nunca”, afirmou.
Fora da política institucional, Isabella pretende concentrar parte de sua atuação no Instituto Primeira Infância Plantar Amor (Pipa), organização voltada ao desenvolvimento infantil e ao apoio às famílias, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade.
Criado em 2018, o instituto acompanha famílias desde o último trimestre da gestação até os três anos de idade da criança, com atendimentos presenciais e digitais. Atualmente, segundo Isabella, a iniciativa alcança cerca de 2 mil famílias e está presente em cinco estados.
A ex-vice-prefeita afirmou que recebeu o convite para integrar o projeto em um momento importante de sua vida e pretende contribuir para fortalecer três eixos: igualdade de gênero, primeira infância e sustentabilidade.
Na entrevista, ela ressaltou a importância de olhar não apenas para o desenvolvimento da criança, mas também para quem exerce os cuidados dentro de casa, especialmente as mulheres.
“Se eu olhar para a mulher, se eu cuidar dessa mulher, o reflexo é direto na criança”, afirmou.
Durante a conversa, a pedetista também comentou a decisão de não permanecer como vice-prefeita na chapa de João Campos nas eleições municipais de 2024, quando foi substituída por Victor Marques (PCdoB), atual prefeito.
Ela afirmou que tinha expectativa de continuar no cargo e avaliou que a saída representou a perda de um espaço simbólico importante para a representação feminina no Recife.
“Eu fui só a primeira e, por enquanto, a última mulher a ocupar o espaço da vice-prefeitura no Recife”, destacou.
Isabella disse que não houve rompimento político com João Campos e afirmou manter respeito e amizade por ele e por Victor Marques.
A ex-vice-prefeita também lembrou que se posicionou publicamente em episódios de manifestações machistas contra outras mulheres na política, inclusive quando as críticas foram direcionadas à governadora Raquel Lyra (PSD). Para ela, a defesa da igualdade de gênero não deve depender de alinhamentos partidários. “Tudo passa, a coerência fica”, afirmou.
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