Fim da escala 6x1: construção prevê imóveis até 10% mais caros

Jamildo Melo | Publicado em 01/09/2026, às 08h35 - Atualizado às 08h42

CBIC calcula que redução da jornada pode elevar em 15% o custo da mão de obra e gerar impacto de R$ 155,6 bilhões por ano no setor. - Ricardo Stuckert
COMPARTILHE:

Ler resumo da notícia

O fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho podem elevar em até 10% os preços de produtos e serviços da construção civil, especialmente no mercado imobiliário, segundo cálculos preliminares da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

A entidade também estima aumento de 15% no custo da mão de obra, com impacto de R$ 155,6 bilhões por ano. Os números fazem parte dos argumentos apresentados pelo setor na discussão sobre mudanças na jornada de trabalho.

A CBIC afirma não ser contrária à redução da jornada, mas defende que uma eventual mudança considere as características específicas de cada atividade econômica. Para a construção, a alteração teria efeitos sobre custos, disponibilidade de trabalhadores, cronogramas e contratos públicos e privados.

Minha Casa, Minha Vida também pode ser afetado, diz CBIC

Entre as principais preocupações apresentadas pela entidade está o impacto sobre a construção de unidades habitacionais, inclusive empreendimentos vinculados ao Minha Casa, Minha Vida.

Segundo a CBIC, a elevação dos custos de mão de obra e a necessidade de ampliar o número de trabalhadores poderiam pressionar os preços e os prazos de entrega dos empreendimentos.

O alerta também alcança grandes obras de infraestrutura e equipamentos públicos, como metrôs, redes de saneamento, hospitais e creches.

A entidade argumenta que boa parte desses contratos é de longo prazo e foi estruturada considerando determinada quantidade de trabalhadores, jornada e cronograma. Mudanças durante a execução poderiam provocar aumento de custos e pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro.

Setor calcula necessidade de mais 288 mil trabalhadores

Outro número apresentado pela CBIC é a necessidade de aproximadamente 288 mil trabalhadores adicionais para manter o atual nível de atividade após uma eventual redução da jornada nos termos discutidos.

A contratação desse contingente representaria custo adicional estimado em R$ 13,5 bilhões por ano.

O setor argumenta que a expansão do quadro de funcionários esbarra em um problema já enfrentado pelas empresas: a escassez de mão de obra. Na avaliação da entidade, caso as vagas adicionais não sejam preenchidas, uma das consequências poderia ser a redução do ritmo das obras.

A combinação de custos maiores e dificuldade para contratar também poderia, segundo a CBIC, levar ao adiamento de investimentos.

Construção defende regras específicas

A CBIC sustenta que uma eventual redução da jornada precisa considerar diferenças entre os setores da economia. Na construção, jornadas diferenciadas já são estabelecidas por convenções coletivas em alguns estados.

A entidade cita ainda a baixa industrialização de parte da construção brasileira como fator que amplia os efeitos da mudança, já que muitas etapas das obras continuam dependendo diretamente da presença de trabalhadores nos canteiros.

A CBIC afirma estar aberta a discutir alternativas com o governo federal e o Congresso Nacional. A entidade defende que a redução da jornada seja acompanhada de estudos sobre produtividade, custos, emprego e investimentos, além de mecanismos de transição para contratos em andamento.

Para a representação empresarial da construção, uma mudança dessa dimensão não deveria ser definida sob pressão do calendário eleitoral.

Leia também

Escala 6x1: Túlio Gadêlha articula com relator do Senado para manter texto enviado da Câmara


Senado começa a analisar PEC que prevê fim da escala 6x1


Renan Santos defende fim da Justiça do Trabalho e critica escala 6x1