Da chamada boa ao palanque: a regulação dos apps em ano eleitoral

Jamildo Melo | Publicado em 23/01/2026, às 16h43 - Atualizado às 17h26

Apps, Lula e Boulos: a regulação pode virar uma grande chamada furada para os entregadores, em ano de eleição - Reprodução
COMPARTILHE:

Ler resumo da notícia

No mundo dos entregadores, eles falam em cair chamada boa, quando o pedido paga bem. E em cair chamada furada, quando a entrega é longa e mal remunerada.

Parados no mesmo ponto, depois de seis anos de promessas de regulamentação, os entregadores estão todos ameaçados de entrar em uma furada coletiva:

Eles estão bem no meio de uma disputa política, justamente em ano eleitoral, de acordo com apuração do site Jamildo.com.

Está dando xabu — com direito a idas e vindas — nas negociações entre o governo Lula e as empresas de aplicativos, com impacto direto em vários setores econômicos.

Com a entrada de Guilherme Boulos na Secretaria-Geral da Presidência, o Palácio do Planalto tenta emplacar uma regulação inédita para motoristas e entregadores de apps.

Do outro lado, as plataformas também defendem uma regulação, mas que garanta “flexibilidade”, e alertam para o risco de desemprego.

O presidente Lula já disse que quer garantir direitos mínimos: contribuição previdenciária, uma remuneração base e alguma previsibilidade.

Até aí, nada fora do script de um governo de esquerda. As empresas também dizem querer isso, mas não há consenso sobre o "como".

O problema é que o debate começa a ganhar contornos mais eleitorais do que técnicos.

O governo fala em endurecer regras, criminalizando as empresas... as empresas afirmam que as regras hoje propostas são um retrocesso com relação ao que vem sendo discutido e consensuado nos últimos anos.

Se isso acontecer, o cenário vira uma guerra de narrativas —.

Não por acaso, Guilherme Boulos virou um dos rostos mais barulhentos desse debate e passou a ser acusado de “jogar para a plateia”.

Ao apostar num discurso mais ideológico, a estratégia parece ser dividir uma categoria que, segundo pesquisas, é majoritariamente de direita e REJEITA qualquer coisa que lembre carteira assinada tradicional.

Mas afinal, onde está o nó da discórdia?

Primeiro, no modelo de vínculo. O governo quer algum tipo de proteção formal.

As empresas e os trabalhadores, em geral, rejeitam qualquer relação trabalhista no modelo da CLT, argumentando em prol da autonomia. Muitos entregadores temem perder flexibilidade de horários e ganhos variáveis.

O segundo ponto é a remuneração. O projeto que tramita na Câmara, e que o governo parece apoiar, chega a prever até tabelamento de preços mínimos por entrega. Ao invés de dizer que as empresas precisam garantir um mínimo justo, obriga as empresas a terem preços fixos.

Algo que fere a lógica do mercado e, para alguns juristas, até a Constituição.

O terceiro ponto é o impacto dessa regulação: quem vai pagar a conta da previdência, do seguro e de um eventual piso mínimo?

Para o consumidor, a lógica é simples: se a regulação encarecer o serviço, o preço da entrega sobe. Não tem mágica.

Para os restaurantes, especialmente os pequenos, o risco é absorver novos custos — pagando taxas maiores — ou repassar tudo para o cliente.

Os entregadores vivem a contradição central desse debate... querem proteção contra acidentes, doenças e a velhice, mas sem abrir mão da liberdade que os aplicativos oferecem hoje.

Se o governo insistir em dividir a categoria, pode acabar unindo todo mundo… contra a proposta.

No fim das contas, a regulação é necessária, sim.

O problema é quando ela nasce mais preocupada com aplauso de rede social do que com equilíbrio econômico. Quem ganha mais tentando posar de herói do povo?

entregadores Regulação apps

Leia também

99Food inicia operação no Grande Recife com investimento de R$ 100 milhões


Guilherme Boulos é o novo ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Lula


Novos trabalhadores rejeitam CLT e MEI e regulação de aplicativos como iFood naufraga