OPINIÃO: Racismo religioso na Câmara do Recife e o fascismo que usa Deus como escudo

João Carvalho | Publicado em 19/08/2026, às 16h02

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Texto de opinião escrito por João Carvalho, jornalista, pesquisador e mestrando em Ciências da Religião pela Unicap, enviado ao Jamildo.com

Racismo religioso na Câmara do Recife e o fascismo que usa Deus como escudo

O ataque do vereador Thiago Medina à Mestra Ritinha e à Jurema Sagrada foi muito além de uma grosseria. O episódio de racismo religioso na Câmara do Recife mostra como a extrema direita aprendeu a usar a fé, o preconceito e as redes sociais para criar inimigos, ganhar likes e alimentar um projeto autoritário.

Vamos começar pelo óbvio, porque o óbvio anda precisando ser defendido no Brasil. O vereador Thiago Medina, do PL, tinha todo o direito de votar contra o projeto que criaria o Dia Municipal da Mestra Ritinha. Podia questionar a proposta, dizer que era desnecessária ou simplesmente votar não. Faz parte da democracia. O que ele não tinha era o direito de transformar a tribuna da Câmara do Recife em púlpito particular, chamar o projeto de “porcaria”, reduzir Mestra Ritinha a “mestra dos cabarés” e dizer que um “cristão de verdade” não poderia apoiar a homenagem. Isso não é coragem nem debate duro. É uma agressão pública contra uma religião afro-indígena, feita diante das câmeras e usando a autoridade de um mandato.

E não foi uma frase que escapou no calor da discussão. Veio o deboche contra a “ciência” da Jurema, depois a associação com o cabaré, o projeto virou “porcaria”, a religião foi colocada no campo das “trevas” e o vereador anunciou que aquelas entidades “não terão vez” em seu mandato. Quando tudo aponta para o mesmo lado, fica difícil vender a versão de mal-entendido. O discurso tinha alvo e tinha um público muito bem calculado.

Quando a intolerância vira racismo religioso

O ataque tinha endereço certo. A Jurema Sagrada carrega raízes indígenas e negras e está profundamente ligada ao Nordeste, à sua memória e à resistência de populações que atravessaram colonização, escravidão e perseguição religiosa. Mestra Ritinha é cultuada como entidade de força, proteção, aconselhamento e acolhimento. Quando um parlamentar a chama de “mestra dos cabarés”, não atinge apenas um nome. Atinge as pessoas para quem aquela entidade possui valor espiritual e comunitário.

A pergunta debochada sobre qual seria a “ciência” da Jurema também mostra preconceito, ignorância, falta de estudo, maldade e um ato que precisa ser investigado também como possível crime. Na Jurema, ciência não significa laboratório, jaleco ou diploma universitário. Está ligada ao conhecimento transmitido pela tradição, às plantas, às práticas de cura, ao aconselhamento, aos ritos e aos saberes de mestres e mestras. Medina não perguntou porque queria entender. Perguntou para ridicularizar.

É aí que o racismo religioso aparece de forma muito clara. Racismo não existe apenas quando alguém fala diretamente da cor da pele de outra pessoa. Ele também funciona quando um grupo se acha no direito de decidir o que é conhecimento e o que é ignorância, o que é religião e o que é sujeira, quem representa a luz e quem deve ser jogado nas trevas. A colonização também fez isso. Não bastava dominar povos. Era preciso dizer que sua cultura, sua memória e sua relação com o sagrado valiam menos. Frantz Fanon, psiquiatra e pensador martinicano que se tornou uma das grandes referências da crítica ao racismo e ao colonialismo, mostrou como essa dominação também acontece pela linguagem e pela forma como um povo é levado a enxergar a si mesmo como inferior.

Foi essa hierarquia que apareceu na Câmara. De um lado, o parlamentar se apresentou como portador da religião verdadeira, da moral verdadeira e da luz verdadeira. Do outro, colocou uma tradição afro-indígena no campo da porcaria, do cabaré, da falta de ciência e das trevas. Em português bem claro, a fé dele poderia orientar seu mandato. A fé dos outros teria de aceitar o lugar que ele decidisse dar a ela.
A referência ao cabaré também carrega preconceitos conhecidos contra mulheres, população LGBTQIA+, trabalhadoras sexuais e pessoas historicamente empurradas para as margens. Mestra Ritinha é associada justamente ao acolhimento de quem vive essas situações de exclusão. O ataque acertou exatamente esse ponto.

Outro absurdo foi Medina distribuir certificado de “cristão de verdade”. Mandato de vereador não dá autoridade teológica a ninguém. O cristianismo não pertence ao PL, a uma igreja, a um pastor ou a quem grita mais alto diante das câmeras. Existem milhões de cristãos que defendem liberdade religiosa, Estado laico e convivência com outras tradições. É perfeitamente possível ser cristão e reconhecer o direito de um juremeiro viver sua fé.

A Bíblia pode orientar a consciência pessoal de Medina. Ela não pode substituir a Constituição. A Câmara não é igreja, o plenário não é altar e Recife não é uma teocracia. Um parlamentar pode ter fé. O que ele não pode é usar sua fé como régua para decidir quais cidadãos merecem respeito.

Também não dá para esconder tudo atrás da liberdade de expressão. A responsabilidade criminal será definida pelas autoridades competentes, com investigação e direito de defesa. Mas existe fundamento para uma apuração séria. A denúncia apresentada após o episódio aponta justamente para a legislação que combate a discriminação motivada por religião. Ninguém precisa condenar alguém antes do processo. Mas ninguém é obrigado a fingir que não ouviu o que foi dito.

Isso não coloca a vereadora Jô Cavalcanti, do PSOL, acima de qualquer crítica. Ao responder com xingamentos ao colega parlamentar, ela também errou. A Câmara é uma casa legislativa, não um ringue nem uma mesa de bar. Indignação não dá licença para abandonar o respeito que o cargo exige, e eventual falta de decoro também deve ser analisada pelo Conselho de Ética. Mas é preciso evitar uma falsa equivalência. Xingamento entre parlamentares é condenável. Outra coisa é usar a tribuna para atacar uma tradição religiosa inteira, historicamente perseguida, tratando essa religião como sujeira e trevas. Um erro não diminui a gravidade do outro.

O fascismo que transforma fé em arma política

É aqui que precisamos falar de fascismo sem usar a palavra como simples xingamento. O que aconteceu na Câmara carrega elementos de uma lógica fascista que voltou a circular com assustadora naturalidade no Brasil. Isso não significa dizer que vivemos a Itália de Mussolini. O fascismo de hoje não precisa copiar o século passado. Ele muda de aparência, entra nas instituições, usa eleições, redes sociais, vídeos curtos e algoritmos. Mas conserva métodos conhecidos. Cria inimigos, divide a sociedade entre bons e maus, puros e impuros, luz e trevas, e transforma grupos minoritários em ameaça.

A extrema direita contemporânea aprendeu a trabalhar muito bem com imagem, slogans, provocações e escândalos. O objetivo é manter a base mobilizada e irritada. A democracia pode ser corroída por dentro, inclusive por pessoas eleitas por ela. As novas formas do fascismo não precisam repetir exatamente os velhos símbolos para carregar parte daquela lógica autoritária.

Quando Medina coloca sua religião no campo da luz e a Jurema no campo das trevas, é isso que acontece. Quem é chamado de trevas deixa de aparecer como alguém com quem se conversa. Vira algo a ser combatido. E quando o outro deixa de ser visto como cidadão e passa a ser apresentado como ameaça, o caminho para o autoritarismo fica mais curto.

O Brasil conhece bem esse roteiro. Nos últimos anos, setores da extrema direita transformaram adversários em inimigos da pátria, trataram instituições democráticas como obstáculos e usaram linguagem religiosa para dar aparência sagrada a projetos de poder. Militantes e políticos desse mesmo campo chegaram a apoiar uma tentativa de ruptura democrática usando Deus, família e pátria como palavras de ordem. A religião não apareceu ali por acaso. Ela ajudou a dar uma autorização moral a quem passou a acreditar que podia tudo.

Por isso o caso de racismo religioso na Câmara do Recife não pode ser tratado como uma pequena briga municipal. Ele reproduz uma lógica conhecida. Usa-se Deus para legitimar uma posição política e, logo depois, transforma-se quem pensa ou crê diferente em ameaça moral.

Nas redes, o método também é conhecido. Um grupo historicamente atacado vira alvo, vem a provocação, a reação aparece e a confusão se transforma em vídeo. Depois surgem os cortes, os compartilhamentos, os comentários indignados e a pose de perseguido. A religião atacada sai do centro da conversa e o provocador vira protagonista. A agressão produz engajamento e o engajamento pode virar voto.

Foi assim que Medina conseguiu colocar PSOL, cabaré, cristianismo, luz e trevas dentro do mesmo discurso. A mistura fazia sentido como comunicação política. O vereador precisava aparecer para sua base como um guerreiro cristão enfrentando aquilo que ele próprio tentou apresentar como errado, perigoso e moralmente inaceitável.

Essa política funciona porque transforma medo e ressentimento em identidade. Em vez de enfrentar problemas complexos, oferece culpados fáceis. Em alguns lugares são imigrantes, em outros muçulmanos, negros, pessoas LGBTQIA+, povos indígenas, religiões de matriz africana ou adversários políticos. Muda o alvo. O método continua parecido.

Há ainda uma perversão da própria fé nesse processo. A religião pode oferecer sentido, coragem e esperança. O problema começa quando um partido, um líder, uma ideologia ou o próprio mandato ganham valor absoluto. A pessoa passa a acreditar que está defendendo Deus quando, na prática, está defendendo o próprio grupo e a própria vontade de poder. Uma fé que precisa humilhar o outro para se afirmar já perdeu alguma coisa essencial no caminho.

É por isso que o diálogo religioso não pode ser tratado como conversa bonita de universidade. Ele é uma necessidade democrática. Raimon Panikkar, filósofo e teólogo que dedicou boa parte de sua obra ao encontro entre diferentes tradições religiosas, defendia que dialogar não exige abandonar a própria fé. Exige, sim, não transformar nossas convicções em regras absolutas para julgar o outro. O objetivo não é vencer, converter ou criar uma religião única. É compreender, escutar e construir pontes onde a ignorância levantou muros.

Medina poderia continuar sendo cristão, votar contra o projeto e explicar suas razões sem atacar a Jurema. Poderia dizer que sua fé não reconhece Mestra Ritinha como entidade espiritual e, ainda assim, reconhecer o direito de milhares de pessoas de reconhecê-la. Isso não seria fraqueza. Seria democracia.

Por isso iniciativas como a Jornada do Ensino Religioso, organizada por estudantes da Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco e marcada para 30 de setembro, ganham ainda mais importância. Discutir religião, sociedade, educação, laicidade, racismo religioso e convivência não é luxo acadêmico. É urgente num país em que a ignorância sobre a fé do outro continua sendo transformada em arma política. Durante a Jornada também será lançado o volume 6 do livro Mosaico Religioso, que discute justamente temas como fé, religiões, espiritualidades e os desafios da convivência no mundo contemporâneo. Em momentos como este, ampliar o conhecimento e colocar diferentes crenças na mesma conversa é também uma forma concreta de enfrentar a intolerância.

Conhecimento ajuda a evitar que preconceitos cheguem à vida adulta como se fossem convicções morais.

A Câmara do Recife precisa responder à altura. O Conselho de Ética deve analisar o que aconteceu, as autoridades competentes precisam avaliar a dimensão jurídica do caso e a Casa deve reafirmar seu compromisso com a liberdade religiosa e com o respeito entre seus próprios integrantes. Isso não é perseguição a cristãos nem tentativa de calar parlamentar. É democracia funcionando.

Mestra Ritinha não precisa da autorização de Thiago Medina para continuar existindo na fé, na memória e na experiência de seu povo. A Jurema Sagrada atravessou séculos de perseguição e continuará existindo depois desse episódio. Quem está sendo testada agora é a democracia recifense.

Quando um parlamentar usa Deus para atacar a religião do outro, chama sua fé de trevas e transforma preconceito em espetáculo para ganhar aplausos, não estamos diante de simples falta de educação. Estamos diante de uma velha lógica autoritária, agora adaptada às redes sociais.

E quando o fascismo sobe à tribuna usando Deus como escudo, o silêncio é exatamente o primeiro aplauso que ele espera receber.

Opinião Câmara do Recife