Jamildo Melo | Publicado em 19/05/2026, às 08h01 - Atualizado às 08h29
Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com
Por seu comportamento educado e abertura ao diálogo, Jair Bolsonaro foi apelidado de Cavalão pelos seus companheiros na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), no Rio de Janeiro, centro formador do oficialato das Forças Armadas.
Comportamento tão fidalgo certamente inspirou os criadores do longa-metragem sobre sua trajetória política intitulado “Dark Horse”, ou seja, “Azarão”, em gíria do inglês norte-americano.
“Cavalão” se envolveu em planejamento de atos terroristas da extrema direita e terminou defenestrado da Aman.
Aposentou-se da farda, se fantasiou de civil, tornou-se porta-voz da direita do exército e terminou eleito presidente da República em 2018.
Agora, o seu problema e do seu clã é o longa-metragem, previsto para estrear em setembro, na véspera do primeiro turno da eleição presidencial.
Mensagens extraídas pela Polícia Federal de celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso em Brasília, comprovam que o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, solicitou dinheiro a Vorcaro para a conclusão do filme.
O ex-banqueiro teria um contrato sigiloso com Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal cassado, o segundo filho do ex-presidente, pelo qual Vorcaro “investiria” R$ 132 milhões em “Azarão”, em dez prestações mensais, desde setembro do ano passado.
O ex-banqueiro já teria repassado R$ 61 milhões, quando Flávio Bolsonaro fez as primeiras cobranças por atrasos.
“Irmão, estou e estarei sempre contigo”, diz o senador ao ex-banqueiro, líder de uma quadrilha que realizou a maior fraude no sistema bancário brasileiro, estimada em R$ 60 bilhões.
“Não tem meia palavra com a gente, só preciso que me dê uma luz. Os pagamentos à equipe do filme estão atrasados”.
O desembolso de R$ 61 milhões, já adiantados por Vorcaro, supera os R$ 28 milhões investidos em “O agente secreto”, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, e os 45 milhões de “Ainda estou aqui”, que recebeu o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2025.
A Polícia Federal vai solicitar ao senador Flávio Bolsonaro informações sobre a origem do dinheiro que financiaria “Azarão” e o início de sua trajetória até a realização do filme. Em entrevistas nervosas, Bolsonarinho – como é tratado na intimidade – deu explicações iniciais.
“Queria homenagear o meu pai e fui buscar o apoio de amigos. Não há dinheiro público nesse projeto. Os recursos foram depositados em um fundo, nos Estados Unidos, que tratou de pagar a equipe que faz o trabalho”.
Tal fundo é administrado por um advogado contratado por Eduardo Bolsonaro. O ex-deputado está sendo processado, no Supremo Tribunal Federal, por articular, nos Estados Unidos, sanções contra autoridades brasileiras, durante o julgamento de “Cavalão” por tentativa de golpe de Estado em 2023.
Ademais, é suspeitíssima a assinatura do irmão de um senador da República em um contrato de milhões de reais envolvendo o chefe de uma quadrilha que liderou uma fraude bancária recorde. E que seja Bolsonarinho o cobrador das mesadas em atraso, em diálogos que terminam com um pungente “amém”.
“Azarão” fez a sucessão presidencial levar um coice.
Em dezembro passado, três candidatos da direita disputavam o apoio de Jair Bolsonaro: o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema; o ex-governador do Paraná, Ratinho Junior, e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
No melhor estilo “Cavalão”, o ex-presidente impôs o nome de Flávio, o mais rejeitado pelos eleitores entre os quatro.
Zema e Ratinho Júnior absorveram o coice e Tarcísio de Freitas se deparou com um impasse: teria de se desincompatibilizar do governo de São Paulo, até 4 de abril, e enfrentar a ira do ex-presidente, caso disputasse a Presidência da República, ou tentar a reeleição. Pressionado, permaneceu no cargo.
No entanto, desde já se computam perdas e ganhos em uma das mais disputadas campanhas eleitorais dos últimos tempos. No momento, Flávio Bolsonaro perde entre aliados e potenciais eleitores.
Não informou a nenhum dos concorrentes da direita sobre a existência do projeto “Azarão” e seu potencial explosivo por envolver recursos de Daniel Vorcaro. O senador também perde eleitores.
Até aqui seu crescimento constante nas pesquisas foi sustentado pelo discurso antipetista, o combate à bandidagem e à corrupção. Com isso, busca manter de seu lado o bolsonarismo-raiz e atrair o eleitorado desalentado com o governo, embora não bolsonarista.
Esse eleitorado sob desalento somaria um terço dos votos, que terminou apoiando seu pai em 2018. As próximas pesquisas de intenção de voto avaliarão o dano do coice em sua candidatura.
Em sua confortável prisão domiciliar, com piscina e cães de raça, o ex-presidente disse ao filho para “ficar firme”, contudo, palavras de incentivo não bastam no pragmático mundo da política, especialmente em ano eleitoral.
Se Bolsonarinho começar a desidratar nas amostragens, “Cavalão” terá de encontrar uma saída a cinco meses das urnas de outubro. Dentro da melhor tradição dos capos mafiosos, o nome alternativo terá de ser do clã e o que resta é o da sua mulher, Michelle Bolsonaro, detestada pelos seus filhos.
Fora do clã, o ex-presidente teria como saída forçada Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, administrador bem sucedido, político acostumado a disputas, que se apresenta como uma terceira via entre petistas e bolsonaristas.
Define-se como um conservador liberal, é do Centro-Oeste, região que mais cresce no país, e tem ligações próximas com o empresariado. Se contar com o apoio dos Bolsonaro, seu problema seria incorporar a rejeição dos eleitores ao clã.
Restam Luiz Inácio Lula da Silva e suas contingências. O escândalo do “Azarão” certamente o favoreceu. Entretanto, disputando o quarto mandato aos 80 anos, o presidente está à frente de um governo que não deslancha, aprovado e desaprovado pela população na mesma proporção.
Nas pesquisas de intenção de voto seu nome aparece na liderança, contudo numericamente empatado com os principais nomes da direita. Todos giram em torno dos 40%, o que é pouco para qualquer um, em uma campanha que se desenha disputadíssima.
Lula enfrenta um Congresso hostil e faz um esforço bilionário para se desgarrar da desaprovação, manter sua base histórica entre os mais pobres e recuperar a classe média.
São muitos os nós a atar e desatar até as convenções partidárias, em julho, que definirão oficialmente os candidatos. Até lá, a guerra nas redes sociais e o tiroteio dos recursos jurídicos não cessarão.
Jair Bolsonaro, por exemplo, ingressou no STF com ação para anular o processo que o condenou a 27 anos e 3 meses de prisão pela tentativa de golpe de Estado; a oposição quer aprovar, no Congresso, anistia para todos os golpistas de 2023 e a Procuradoria Geral da República (PGR) pediu a condenação de Eduardo Bolsonaro, por coação de ministros do Supremo Tribunal Federal.
Dirão os mais temerosos com a conjuntura que não há certezas um metro à frente. Os mais calmos ponderarão que é possível enxergar a dez metros.
O fato é que, das certezas programadas – como a estreia de “Azarão” em setembro – agora disso nem se sabe.
Talvez satisfeito com insólito tumulto, apenas o senador Ciro Nogueira, acusado de receber mesadas entre R$ 300 e 500 mil de Daniel Vorcaro, temporariamente deixado em segundo plano com o escândalo do coice cinematográfico. É de supor que o filme predileto do senador seja, nesses tempos, o clássico adolescente “Esqueceram de mim”.
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