Jamildo Melo | Publicado em 22/10/2026, às 22h50
Lula pode perder esta eleição? Pode. Assim como Flávio Bolsonaro também pode.
A disputa continua aberta. A Quaest divulgada mostrou Flávio com 46% e Lula com 44%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Nesta quinta, o Datafolha apontou um empate de 50% para cada lado.
Portanto, vantagem numérica não é vitória garantida.
Mas quem está no governo chega à eleição com uma responsabilidade adicional: precisa convencer o eleitor de que merece continuar.
Hoje, vamos conversar sobre cinco problemas que podem levar Lula a uma derrota. Alguns dizem respeito ao governo. Outros, à maneira de fazer campanha.
São riscos que ajudam a entender a disputa, sem antecipar o resultado das urnas.
O primeiro problema cabe numa pergunta bem simples: a vida melhorou para quem?
Um governo pode apresentar números positivos e encontrar uma pessoa que continua apertada. O emprego pode ter chegado, mas o salário acaba antes do mês.
A renda pode ter aumentado, mas o supermercado, o aluguel e as prestações continuam pesando.
Essa diferença entre o número e a vida concreta tem consequência eleitoral.
Na pesquisa Datafolha realizada em 13 e 14 de outubro, economia, incluindo referências à inflação e aos alimentos, apareceu como principal problema do país para 15% dos entrevistados.
O risco para Lula é parecer satisfeito com uma situação que parte da população considera insuficiente.
Quem está apertado quer ouvir o que vai melhorar, como vai melhorar e em quanto tempo. Mostrar o que foi feito ajuda, mas não encerra a conversa.
Também precisamos fazer uma distinção: o governo não controla sozinho todos os preços. Há fatores internacionais, juros, clima e decisões de empresas.
Só que o eleitor costuma cobrar de quem está governando.
Se a campanha responder à insatisfação apenas com uma lista de realizações, pode passar a impressão de que não está ouvindo.
O eleitor compara o discurso do governo com o dinheiro que sobrou na própria conta.
O segundo ponto é a segurança. E aqui não adianta conversar apenas com quem já concorda com o governo.
Quem teve o celular roubado, quem fecha o comércio mais cedo ou quem teme a volta do filho para casa quer uma resposta concreta.
O Datafolha colocou a violência no topo das preocupações: 20% apontaram o tema como principal problema do país, à frente de saúde e economia.
Existe uma divisão de responsabilidades. Os estados comandam as principais polícias que atuam no cotidiano.
A União tem atribuições nas fronteiras, na investigação federal, na inteligência e no enfrentamento às organizações criminosas. É preciso cobrar cada autoridade pelo que lhe cabe.
Politicamente, porém, o presidente também é cobrado pela capacidade de coordenar uma resposta.
O problema para Lula aparece se o eleitor entender que o governo demora a reconhecer a gravidade da situação ou fala de um jeito distante da experiência de quem sofre com o crime.
Isso não significa que a proposta do adversário seja automaticamente melhor. Promessa de dureza também precisa ser examinada: funciona? Tem dinheiro? Pode ser executada?
Para Lula, o risco é deixar que o adversário seja visto como o único que leva o medo das pessoas a sério.
Quem vive com medo quer saber o que vai mudar na rua onde mora.
O terceiro problema é a rejeição acumulada.
Há eleitor que reconhece uma política social, aprova uma obra e, mesmo assim, não quer votar no PT. Pode ser por experiências anteriores, denúncias, discordâncias ideológicas ou vontade de alternância.
A campanha precisa entender que essas posições podem coexistir. A pessoa pode reconhecer uma entrega e continuar querendo outro governo.
O risco é imaginar que basta lembrar o passado para recuperar esse eleitor.
A comparação com os primeiros governos Lula pode funcionar para alguns. Para outros, a pergunta é sobre o próximo mandato.
O que Lula pretende fazer agora? O que aprendeu com os erros? O que faria de maneira diferente?
Quando surgem acusações contra qualquer candidato ou familiar, o jornalismo precisa separar denúncia, investigação, prova e decisão judicial.
Parentesco não estabelece culpa. Essa regra vale para Lula e para Flávio.
Mas, na disputa política, uma resposta confusa ou insuficiente pode alimentar a desconfiança, mesmo quando o caso ainda exige esclarecimento.
A hipótese aqui é que parte do eleitorado decida o voto principalmente pelo desejo de encerrar um ciclo.
Se isso acontecer, a lista de realizações pode não ser suficiente para garantir a continuidade.
Reconhecer o que um governo fez não obriga o eleitor a querer mais quatro anos.
O quarto problema é de comunicação.
Uma fala pode ser muito aplaudida num comício e não convencer quem está assistindo de casa. Pode render milhões de visualizações e não mudar um voto.
O apoiador mais fiel quer ver seu candidato reagindo, enfrentando o adversário e defendendo suas posições.
Já quem está em dúvida pode estar procurando outra coisa: uma resposta para o emprego, para a saúde, para a segurança ou para o orçamento da família.
Se Lula concentrar a campanha em mostrar os problemas de Flávio, corre o risco de deixar incompleta a explicação sobre o próprio futuro governo.
Questionar o adversário faz parte da eleição. O eleitor precisa conhecer propostas, contradições e antecedentes dos dois.
Mas também precisa entender por que deveria renovar o mandato de quem está no Planalto.
O risco para Lula é confundir entusiasmo dos aliados com capacidade de ampliar votos.
O aplauso de quem já está convencido não mostra o que pensa quem ainda está em dúvida.
O quinto ponto é a confiança nas propostas apresentadas perto da votação.
Na reta final, medidas que prometem melhorar a renda, reduzir o desgaste do trabalho ou enfrentar a violência ganham destaque.
Reportagem da Folha registrou o avanço de pautas como o fim da escala 6 por 1, a PEC da Segurança e benefícios para microempreendedores.
Esses assuntos têm importância própria e precisam ser discutidos pelo conteúdo.
A proximidade da eleição, porém, traz uma cobrança previsível: por que agora?
Lula pode defender que houve negociação e que só naquele momento apareceu condição política para avançar.
A oposição pode dizer que se trata de uma reação eleitoral. Essas são as versões em disputa.
A análise precisa ir além delas. O que está efetivamente aprovado? O que ainda depende de votação? Quando passa a valer?
Quem será beneficiado? Quanto custa e de onde vem o dinheiro?
O risco para o presidente é anunciar uma mudança e o eleitor enxergar apenas uma promessa apressada.
Isso não autoriza afirmar que toda medida é eleitoreira ou que vai quebrar as contas públicas. Essas conclusões exigem demonstração.
Mas a dúvida sobre a execução já pode limitar o ganho político.
Uma proposta pode ter apoio popular e, ainda assim, não produzir confiança suficiente em quem a apresenta.
Além de gostar da proposta, o eleitor precisa acreditar que ela vai sair do papel.
Esses cinco problemas podem se somar: aperto no bolso, insegurança, rejeição acumulada, dificuldade de conversar com quem está em dúvida e desconfiança nas promessas.
Mas é preciso deixar claro: as pesquisas citadas não demonstram que esses fatores, juntos, produzirão uma derrota. Estamos discutindo caminhos possíveis para entender o resultado.
Lula também tem realizações para apresentar e eleitores que defendem sua continuidade.
Flávio tem propostas, antecedentes e contradições que precisam passar pelo mesmo exame.
Se Lula perder, será necessário olhar os dados da votação e ouvir os eleitores antes de escolher uma explicação.
Nem tudo pode ser colocado na conta da comunicação. Nem toda insatisfação nasce de informação falsa.
A pergunta que pode pesar para quem está decidindo é direta: o governo que eu tenho merece continuar ou chegou a hora de mudar?
É essa resposta, dada na urna, que vai decidir a eleição.
Pesquisa Datafolha: Lula e Flávio empatam com 50% das intenções de votos válidos
Debate da Globo entre Lula e Flávio será nesta sexta; veja onde assistir e as regras
Pesquisa PoderData mostra Flávio Bolsonaro com 51%; Lula tem 49% dos votos válidos