Nilo Otaviano | Publicado em 09/02/2026, às 17h02
Hoje, em Pernambuco, celebramos o Dia Estadual do Frevo. E eu escrevo estas linhas não apenas como alguém que admira o Frevo, mas como Presidente do Instituto Brasileiro do Frevo (IBF), com o dever — e a alegria — de reafirmar publicamente o que tantas vezes sentimos na pele: o Frevo é uma das expressões mais completas, mais desafiadoras e mais bonitas da cultura popular brasileira.
O Frevo é música, é dança, é cor, é suor, é fôlego. É inteligência coletiva em forma de ritmo acelerado. É a cidade pulsando, é a multidão se entendendo sem precisar combinar nada, é o passo nascendo no improviso, é o corpo respondendo ao metal da orquestra. O Frevo não se explica por inteiro: ele se vive.
E se há uma verdade que o tempo confirma, é esta: a rua é o verdadeiro palco do Frevo. Não existe Frevo sem esquina, sem calçada, sem o empurra-empurra da alegria, sem o calor humano que transforma o chão em território sagrado. A rua é o lugar onde o Frevo testa sua força, renova seu sentido e prova, ano após ano, que não é peça de museu. Pelo contrário: é tradição viva, em permanente movimento.
Ao longo de mais de 130 anos de história, o Frevo produziu nomes que se tornaram referência — e que merecem nossa reverência. São compositores, maestros, instrumentistas, passistas, coreógrafos, artesãos e agremiações que, cada um a seu modo, ajudaram a consolidar esse patrimônio que Pernambuco oferece ao Brasil e ao mundo. Há uma constelação de grandes criadores que moldaram linguagens, elevaram padrões, abriram caminhos e deixaram obras que atravessam gerações.
Mas hoje, neste Dia Estadual do Frevo, eu quero destacar, acima de tudo, um grupo sem o qual não há Frevo possível: os músicos anônimos das orquestras de rua.
São eles — e aqui falo com respeito profundo — que fazem o Frevo cumprir sua vocação essencial: ser coletivo. São músicos que, muitas vezes, não aparecem nos créditos, não recebem aplauso individual, não viram manchete, não têm nome em placa. No entanto, são eles que sustentam, com disciplina e resistência, a engrenagem que mantém essa tradição pulsando com força intacta.
É fácil elogiar o Frevo quando ele soa perfeito. Difícil é reconhecer o esforço que existe por trás da perfeição. Porque tocar Frevo não é simples. É exigência física, é velocidade, é precisão, é memória, é escuta, é entrega. A orquestra de Frevo, na rua, é uma escola severa: não perdoa distração, não aceita morosidade, não tolera falta de fôlego. O Frevo pede tudo — e, em troca, oferece ao músico algo raro: pertencimento. O músico da rua toca e, ao mesmo tempo, conduz uma multidão.
Esses instrumentistas, espalhados pelos bairros, pelas cidades, pelas festas populares, são os verdadeiros responsáveis por o Frevo ter ultrapassado um século e continuar vibrante, atual e inteiro. Eles são a prova concreta de que o Frevo não sobrevive apenas de memória: ele sobrevive de prática. De repetição. De compromisso. De repertório passado de mão em mão.
De arranjos guardados na cabeça. De ensaios possíveis quando a vida permite. De instrumentos que resistem ao tempo e ao uso. De trabalho que nem sempre encontra as condições ideais, mas que, mesmo assim, acontece — porque existe amor e existe missão.
E é por isso que, quando vemos o Frevo ser celebrado, premiado, reconhecido, aplaudido — quando lembramos o valor simbólico de ser Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade — precisamos entender que o título mais importante do Frevo não cabe em diploma. O título mais importante do Frevo é aquele que a rua renova todos os anos: o de tradição indispensável, sustentada por gente real.
No Instituto Brasileiro do Frevo, nós defendemos que valorizar o Frevo é valorizar as pessoas do Frevo. Isso inclui proteger a memória, estimular a formação, incentivar a pesquisa, apoiar agremiações, fortalecer políticas públicas e garantir condições dignas para quem faz essa cultura existir. O Frevo não pode depender apenas do heroísmo dos seus fazedores; ele precisa de reconhecimento material, de respeito institucional, de continuidade e de planejamento.
Hoje é dia de celebrar, sim. Mas também é dia de reafirmar um compromisso: o Frevo não é apenas passado glorioso — é futuro possível. E esse futuro passa por reconhecer os grandes nomes, sem esquecer que a força do Frevo nasce do coletivo, do anonimato, da base, do chão batido, do sopro firme de quem, na rua, transforma música em história.
Que Pernambuco siga honrando o Frevo não apenas com festa, mas com valorização concreta. E que o Brasil compreenda, cada vez mais, que o Frevo não é uma curiosidade regional: é uma potência cultural do país. Uma linguagem brasileira, inventiva, sofisticada, popular — e, sobretudo, resistente.
Viva o Frevo! Viva a rua! Viva os músicos que fazem a cidade dançar!
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