Jamildo Melo | Publicado em 06/05/2026, às 12h15 - Atualizado às 12h36
Por Ricardo Leitão, em artigo especial para o site Jamildo.com
Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um cenário de primeiro turno mais apertado desde a eleição presidencial de 2022.
A pouco mais de cinco meses das urnas de outubro – como acontece agora – ele tinha 32% das intenções de votos contra 22% de José Serra, em 2002; 46% contra 29% de Geraldo Alckmin, em 2006, e 48% contra 27% de Jair Bolsonaro, em 2022.
Os números deste ano mudaram radicalmente e de forma negativa para o presidente.
Na média das últimas pesquisas, Lula tem 39% das intenções de voto, seguido de perto por Flávio Bolsonaro, ou seja, tecnicamente empatado com o representante da direita quando se aplica a margem de erro das amostragens.
Em simulações de segundo turno, o primogênito de Jair Bolsonaro chega a vencer Lula em alguns estados como São Paulo. E outros candidatos da direita – Ronaldo Caiado e Romeu Zema – encostam no petista.
Calejado por vitórias e derrotas ao longo da vida política, Lula sabe que não é hora de errar, nem permitir que outros errem em seu nome. Neste sentido, os dois últimos dias de abril foram desastrosos.
Em 29, por larga margem de votos, o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias – escolha sua – para uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
No dia seguinte, o Congresso derrubou o veto do presidente ao chamado Projeto de Lei da Dosimetria.
Há 132 anos, uma indicação de candidato de um presidente da República a uma vaga de ministro do STF não era rejeitada pelo Senado. O último caso aconteceu na presidência de Floriano Peixoto, em 1894, sucessor de Deodoro da Fonseca.
A derrubada do veto ao Projeto de Lei da Dosimetria foi uma vitória dos bolsonaristas e da direita. Ao vigorar desde já, a nova legislação vai possibilitar a redução das penas da quadrilha que planejou o golpe de estado de janeiro de 2023.
Entre eles o líder Jair Bolsonaro e os comandantes Walter Braga Neto, Almir Garnier, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira.
As duas vitórias da direita, apadrinhadas por David Alcolumbre, presidente do Senado, repercutem nas relações de Lula com o Congresso e do Congresso com o STF, escancaradamente dividido entre aliados de Messias e outro grupo que se mobilizou no sentido contrário.
Nessa conjuntura tumultuada, na qual ainda interferem até a guerra no Oriente Médio e a crise do petróleo, Lula tenta avançar. Enfrenta alto risco caso encaminhe um novo nome para o Senado, diante da possibilidade de os senadores o rejeitarem.
Ao mesmo tempo, depende do Senado e da Câmara dos Deputados para aprovar projetos, como o da redução da jornada de trabalho, que marcariam sua gestão.
A inflação não cai, os juros permanecem altos e há dificuldades em fechar alianças eleitorais nos estados.
Nas franjas da conjuntura, ficam explicitados os objetivos de Bolsonarinho (como o candidato foi apelidado por Fernando Haddad) e Alcolumbre. O senador bloquearia a decisão sobre a vaga no Supremo, para que seja encaminhada pelo próximo presidente.
Assim, se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, teria o direito de indicar, até o fim do primeiro mandato, quatro nomes para o STF nas vagas dos ministros Luiz Fux, Carmem Lúcia e Gilmar Mendes, que irão se aposentar.
Com a indicação de quatro ministros para substituir os aposentados, mais os dois ministros indicados por Jair Bolsonaro (André Mendonça e Kássio Mendes Marques), a direita e o bolsonarismo fariam maioria no STF.
Em contrapartida, Bolsonarinho apoiaria a reeleição de Alcolumbre para a presidência no Senado em 2027.
Trata-se, evidentemente, de uma especulação, exercício caro na política, ainda mais a cinco meses das eleições. Mesmo assim, anima os bolsonaristas agora preocupados prioritariamente em formatar uma nova imagem do candidato da direita e diminuir a rejeição ao seu nome entre os eleitores.
O ilustre senador Flávio Bolsonaro é um diligente candidato em vários campos de atuação. Sua lista de passivos é grande. Ele foi flagrado em um esquema de rachadinhas, o tradicional peculato, quando deputado estadual pelo Rio de Janeiro e lavou dinheiro em uma franquia de loja de chocolate e na compra de imóveis, inclusive uma mansão em Brasília.
O conjunto da obra levou o Ministério Público fluminense a denunciá-lo, ação da qual se livrou pela intervenção de cortes superiores. É tímido como parlamentar: nunca apresentou qualquer projeto de interesse do Rio de Janeiro, sua base política, ou do País, no que repete o desempenho do papai.
Além desse currículo, Bolsonarinho enfrenta concorrência no campo da direita, no qual perde em experiência administrativa para Ronaldo Caiado, o muito bem avaliado ex-governador de Goiás.
Ao rol de suas fragilidades, acrescentem-se a distância que dele guarda Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, candidato à reeleição; o descontentamento da madrasta Michelle Bolsonaro com a sua candidatura e o silêncio dos evangélicos.
Sem plataformas anunciadas, seu maior patrimônio é o sobrenome, e a principal tática tentar grudar em Lula uma rejeição dos eleitores superior à que atropela o próprio crescimento.
Assuntando a troca de chumbo entre os dois adversários, Ronaldo Caiado por enquanto joga parado. Ele talvez se lembre da campanha presidencial de 1989, quando Leonel Brizola e Fernando Collor eram os favoritos e Lula ironizado pelos brizolistas como “o sapo barbudo”.
Collor e o “sapo” passaram para o segundo turno, quando então o petista foi alvo de uma gigantesca campanha da elite nacional e internacional que o desidratou e elegeu o “caçador de marajás”. O resultado é conhecido.
Caiado – que na eleição presidencial de 1989 ficou em décimo lugar, com 0,72% dos votos – aposta na radicalização do confronto entre Lula e Bolsonarinho.
Tentará então se consolidar como a terceira via, democrática, apartado da radicalização entre a esquerda e a direita, aprovado como administrador público, recolhendo votos entre os indecisos (hoje um terço dos eleitores, segundo as pesquisas) e o apoio do empresariado cansado do lulismo e do bolsonarismo.
Ele seria, na disputa, o único representante do Centro-oeste, a região que mais cresce no País, território do agronegócio, de fortes ligações econômicas com o Sudeste.
Uma terceira via desponta no horizonte?
Cravar sim ou não é arriscar na quiromancia, a cinco meses das urnas de outubro. Um oceano vai passar por debaixo das pontes.
No entanto, é recomendável não esquecer Ronaldo Caiado. Ele é tão calejado em eleições quanto Lula e resistente como um vaqueiro tocador de boiadas no Pantanal. Entrou no jogo e não quer ficar na reserva.
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